CAPÍTULO 12 - PODEROSA E PERIGOSA

Rubia só encontrou com Kênia no outro dia, na faculdade, um pouco antes do meio dia. Kênia estava sentada em um banco, sozinha, procurando alguma coisa na mochila. Percebeu a aproximação de uma pessoa e voltou seus olhos para cima. Quando se deparou com Rubia, sorriu, irônica.

- Você pode me explicar o que foi aquilo ontem à noite? - Rubia fez a pergunta de supetão. Mal dormira à noite e, quando o fizera, sonhara com todos aqueles eventos perturbadores.

- Pergunte para sua mãe. Ela deve saber.

Kênia continuou a mexer na mochila, ignorando propositadamente a amiga. Não tinha muito o que dizer a ela. 

- Gostaria de saber por sua boca.

- Prefiro que não.

A chave do carro que tanto procurava estava no fundo da mochila. Assim que a encontrou, Kênia ficou em pé.

- Se você me dá licença, preciso ir.

- Kênia, você está cada dia mais estranha.

Ela riu e olhou para o lado evitando maior contato visual com Rubia. E, quando fez isto, deu de cara com Cris a encarando do outro lado do estacionamento. Seu coração deu uma leve acelerada. Fazia algum tempo que não o via. E ele continuava lindo.

Rubia acompanhou o olhar de Kênia. E comentou:

- Fiquei sabendo que ele está solteiro.

- Deve ser a macumba que eu fiz.

Cris deu um leve aceno para ambas e entrou no carro partindo em seguida.

- O quê? - Rubia quase soltou um grito. - O que você fez?

- Nada, criatura. Foi só uma brincadeira. Bem, agora preciso ir.

Mas Rubia colocou a mão no braço de Kênia, impedindo que ela se fosse tão cedo.

- Escute, Kênia. Você... bem, você sabe o quanto eu a considero. Então, se você tem algum problema e precisa desabafar, por favor, quero que saiba que estou aqui.

- Obrigada, Rubia. Mas você sabe muito bem que meus problemas eu resolvo sozinha.

Kênia deu meia volta e foi em direção ao seu carro. Rubia, contudo, não se deu por vencida. Decidiu que faria o que a amiga sugerira. Iria confrontar sua própria mãe.

                                                                    *

Rubia só foi recebida pela mãe por volta das 15 horas na Casa de Governo. Aguardou, impaciente e nervosa, que Janine conseguisse uma brecha na sua agenda corrida e, por fim, morrendo de fome, se viu dentro do gabinete da Governadora.

Janine olhou para a filha enquanto comia uma maçã. 

- Escute aqui, nem almocei. Diga o que você quer de uma vez. Tenho uma dúzia de gente para atender hoje.

A princípio, Rubia ficou em silêncio, apenas lembrando da noite anterior quando Janine encenou, na frente de todos, aquele espetáculo de família feliz. Chegara a acreditar que aquilo era verdade. Rubia foi direta:

- Qual seu problema com a Kênia?

Devagar, Janine afastou os olhos do relatório que lia e encarou a filha. O pedaço de maçã quase entalou na garganta e ela precisou de alguns goles de água para não se engasgar.

- Não acredito que você veio até aqui para falar daquela destrambelhada.

- Não estou falando dela. É sobre você. Quero saber o motivo pelo qual ela agiu daquela forma. E mais ainda. Por que você se deixou ficar tão abalada.

- Não fiquei abalada.

- Ah, ficou sim!

- Por que você não pergunta para sua amiga o motivo?

- Eu perguntei. E ela disse para eu vir falar com você.

Janine levantou da cadeira com um sorriso sarcástico. Estava furiosa. E muito nervosa.

- Não se deixe levar por aquela maluca, Rubia. Ela vai fazer o possível para me destruir.

- Mãe! - as vozes começaram a se elevar. - Por que Kênia iria destruir você? Por quê? De graça? Kênia é louca, mas há algum motivo por trás! E quero que você me conte o que é!

Janine não gostou do tom de voz de Rubia. Deu a volta na grande mesa e parou frente à filha com as mãos na cintura.

- Quem você pensa que é para vir aqui me afrontar?

- Sua filha. E não estou afrontando. Só quero respostas.

- Não tenho que lhe dar satisfações, Rubia. Meu Deus, estou cheia de coisa para fazer aqui. 

- Tudo bem. Espero você em casa para terminarmos nossa conversa.

A garota deu meia volta para ir embora, mas Janine a puxou com força pelo braço.

- Você está proibida de ver Kênia a partir de agora!

A reação da mãe assustou e surpreendeu Rubia. Janine só faltava espumar pela boca. Sua expressão era de raiva e um pouco de medo. Ela tentou se soltar, mas a mãe continuou a apertando firme.

- O que você está dizendo?

- Você ouviu muito bem. Quero você longe daquele monstro.

Por fim, Janine soltou a filha e voltou para sua mesa. Com a mão trêmula tomou uma garrafa inteira de água ante os olhos assustados de Rubia.

- Vá embora daqui - ordenou ela. - Não venha bagunçar meu dia mais do que já está.

Rubia respirou fundo. Ela também tremia e precisou firmar a voz para falar o que estava atravessado na sua garganta.

- Nunca irei me afastar de Kênia, nem que ela queira. Eu a amo. Entendeu? Está ouvindo? Eu a amo!

Segurando o choro, Rubia saiu pisando duro do gabinete. Janine abriu a bolsa e pegou o maço de cigarro. Mas nem a nicotina foi capaz de aliviar a pressão que esmagava seu peito.

                                                                       *

A conversa com Tadeu havia sido difícil e dura no café da manhã da terça-feira. Kênia fizera o possível para evitar o pai e, com isto, a enorme discussão que certamente aconteceria. Mas o embate aconteceu. Tadeu não mediu palavras para insultar Kênia. Durante todo o tempo Kênia não abriu a boca a não ser para tomar suco de laranja e comer as coisas gostosas que a cozinheira preparara. Mas tudo tinha o mesmo gosto e descia quadrado pela garganta. Lola, assustada com a gritaria do patrão, saiu da sala e aguardou, tensa, do outro lado da porta. Por fim, depois que Tadeu cansou de falar e se serviu de uma xícara enorme de café preto e puro, Kênia encarou o pai e perguntou, com aquele tom de deboche que deixava os nervos de qualquer um a ponto de bala:

- Acabou?

- Acabei - respondeu ele com a voz rouca.

- Certo - Kênia levantou, segurou a mochila e firmou outra vez os olhos nele. - Eu nem comecei ainda. E você, seu cachorro - Kênia apontou o dedo indicador para Tadeu - tem uma grande parcela nisso. Tenha um bom dia.

Tadeu observou, calado, Kênia sair da sala, abrir com força a porta principal da casa e a bater com raiva. Lá fora ela respirou fundo o doce ar da manhã e foi para o carro. Decidiu que não iria à faculdade aquele dia. Não tinha cabeça para tanto. Seu peito doía de angústia quando lembrava de Janine. Não que estivesse temendo alguma coisa. Mas só o fato de pensar em Janine fazia com sua mente voasse ao encontro da sua mãe. Tudo o que fazia era para honrar Karla e sua existência tão sofrida no final.

Kênia passou a manhã toda em um parque da cidade sentada em um banco. Depois deu uma volta pelos caminhos verdes e deu pão para os peixes que habitavam o grande lago. A satisfação que sentira quando afrontara Janine no partido dera lugar a um vazio inexplicável. O mesmo que sentira quando Karla morrera. Era preciso dar um fim àquilo tudo para pudesse recomeçar a viver.

Subitamente, lembrou de tia Rebeca, irmã de Karla e mãe de Cris. Há quanto tempo não se viam? Mais de ano. Kênia não fazia muita questão de encontrar a tia por um simples motivo. Rebeca era muito parecida com a irmã mais nova. Depois de um acidente de carro, ainda quando Karla estava viva, Rebeca passou a viver em cima de uma cadeira de rodas. Mas, naquele dia, Kênia decidiu ir visitar a tia. O coração pesado talvez ficasse mais leve se escutasse as palavras confortáveis que só Rebeca conseguia dizer. Nem pensou em ver Cris. Era provável que o primo passasse o dia inteiro na faculdade. Quando Kênia tocou a campainha da casa e a empregada abriu a porta, foi como se o passado voltasse de repente. O aroma de lavanda fluindo no ar fez com que Kênia respirasse fundo para absorver melhor a fragrância. Até se sentiu melhor.

- Que milagre é este? Minha sobrinha linda vindo me visitar?

Kênia se virou e se deparou com Rebeca se aproximando movimentando sua cadeira com as mãos girando as rodas. A mulher estava um pouco mais envelhecida, com rugas no rosto e com os longos cabelos grisalhos descendo pelos ombro. Mas seu sorriso aberto a deixava com um aspecto mais jovial.

- Oi, tia. 

Kênia se agachou para abraçar a tia e se sentou no sofá florido. Rebeca se manteve sentada na sua cadeira próxima à sobrinha. Trazia no rosto uma expressão curiosa.

- O que a traz aqui em um dia tão bonito?

- Saudades. Pode ser? Nem fui à faculdade hoje. Resolvi passar a manhã no parque.

- Fez bem. Já almoçou? 

- Não. Mas nem estou com fome.

- Que tal um chá com biscoitinhos?

- Pode ser, então.

Rebeca pediu para a empregada providenciar e se voltou para a sobrinha.

- O que houve, querida? Sinto você tão triste.

- Meu pai brigou comigo hoje - Kênia suspirou. - E acho que estou um pouco cansada também.

- Tadeu sempre foi um chato. Brigou por qual motivo?

- Janine.

Rebeca retorceu a boca e as mãos se crisparam.

- Só podia ser.

- Tia, ela está na minha mão.

- Hein? - a mulher arregalou os olhos. - Como assim?

- Você soube que ela foi indicada pelo partido para concorrer à presidência da república?

- E quem não sabe? Só se fala nesta bruaca o dia inteiro nos telejornais.

- Tia, eu aprontei uma pra ela.

Com riqueza de detalhes, Kênia narrou tudo o que se passara naquela noite no partido. Rebeca acompanhou com risadas, palavrões e no final ainda abraçou a sobrinha.

- Você foi perfeita! Sua mãe, de onde estiver, está rolando de tanto rir.

- Este foi o motivo do barraco lá em casa hoje. Tia, meu pai estava transtornado. Eu virei a inimiga número 1 dele. Mas quer saber? Estou pouco me lixando. Por causa dele e daquela vaca minha mãe morreu. Quer dizer, ela morreria de qualquer forma, porém eles deram o empurrão final. Jamais vou perdoar Janine por ter sido amante do meu pai enquanto se fazia de amiga íntima da minha mãe. Como meu pai foi capaz disso?

- Se você precisar de um apoio, meu anjo, pode contar comigo. Mesmo eu estando nesta maldita cadeira de rodas posso ajudar você. Ah, como eu tenho vontade de esmagar a cara de Janine com um soco bem dado. Mas... você não tem vontade de se vingar do Tadeu também?

- Ah, tia... eu me vingo todos os dias. Roubo dinheiro dele, infernizo cada namorada que ele arruma, bebo para deixá-lo irritado. Mas eu o amo, sabe? Porém, isto não me impede de transformar a vida do meu pai num inferno. Ele merece. 

- Quer dizer que a vagabunda tremeu quando viu você? - Rebeca se regozijava com aquela informação.

- Sim. Todinha. Deve estar tremendo até agora. Bem, tia, ela já deve saber que eu não vou parar por ali. 

- Tome cuidado, Kênia. Aquela bisca é poderosa e perigosa.

- E se eu for mais?

Naquele momento a porta da casa abriu e o coração de Kênia deu uma batida a mais. Cris havia chegado.

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