CAPÍTULO 10 - VIRANDO O JOGO
Era um domingo frio.
Tadeu, resfriado, acompanhava pela internet o desenrolar das prévias que
indicaria Janine para disputar a presidência da república. Nas últimas semanas
aquele era o assunto dominante no país. E também na casa de Kênia.
Por volta das 17 horas Tadeu levantou do sofá e
anunciou, decidido:
- Vou para a sede do partido. Quero estar por lá
quando Janine for aclamada.
- Por mim você pode ir para onde bem entender -
devolveu Kênia grudada no celular, disparando mensagens para Vitório. Era a
quinta em menos de 20 minutos. Ele, contudo, não respondia a nenhuma.
O relacionamento entre ambos vivia altos e baixos. Por
conta das prévias e dos preparativos para aquele grande domingo, Vitório
decidiu se afastar um pouco da amante para se dedicar à Janine. E é lógico,
Kênia não absorveu bem aquela situação. Era como tivesse sido deixada de lado.
Vitório sabia o risco que estava correndo ao fazer isto e temia uma reação por
parte de Kênia. Contudo, se não apoiasse a esposa naquele momento crucial da
sua vida política, especulações poderiam surgir. E tudo o que Vitório precisava
era de paz para atravessar aquele período.
Na sede do partido, Janine largou o celular sobre uma
mesinha e olhou para Leandro. Ambos estavam um pouco afastados das demais pessoas.
A apuração começaria em pouco tempo.
- Olha lá - Janine fez um movimento com a cabeça na
direção do marido. Vitório se mantinha em um canto da sala, sozinho, com os
olhos no celular. Sua fisionomia era pura tensão.
- O que tem? - Leandro não parecia muito preocupado
com Vitório. Aliás, considerava-o um fraco, idiota e totalmente à sombra de
Janine.
- Ele pensa que é esperto - desdenhou a Governadora
com uma careta. - Desde que chegamos não sai daquele maldito celular. Deve
estar de papinho com a cobra.
- Quem? A Kê...
- Psh! - fez ela, irritada. - Fale baixo!
Leandro confessou:
- Nem lembrava mais desta história. Então você acha
que seu marido e a fulana estão de caso?
- Certeza não sei - Janine pegou um cigarro do bolso,
nervosa pela proximidade do início da apuração. - Vitório é discreto. Depois
daquela surra que lhe dei nunca mais me deu motivos para desconfiar de nada.
Sempre que precisei esteve comigo nestes últimos meses. Porém - Janine deu uma
longa tragada no cigarro - meu instinto feminino grita que ele tem outra.
- Bem, pelo menos está sendo tão discreto quanto nós.
- Psh! – Janine acertou um leve tapa no braço de
Leandro e ainda atraiu a atenção de Vitório. Este fez um gesto com a cabeça
perguntando o que estava acontecendo. Disfarçando um sorriso, Janine respondeu
que não era nada. Deu mais uma tragada, tensa. Um membro do partido entrara na
disputa na última hora e, mesmo ela tendo a preferência dos correligionários, não
conseguia relaxar.
- Precisa fumar deste jeito? - Leandro arrancou o
cigarro das mãos dela e voltou a olhar para Vitório. - Acho que quem precisa de
nicotina é seu marido. Veja a expressão dele. A coisa tá feia.
Janine observou o marido em meio a uma série de
batidas disparadas do seu coração.
- Se ele ousar pisar na bola comigo, juro pela minha
carreira política que eu o mato.
*
Vitório estava muito ciente que estava na mira dos
olhares da esposa e Leandro. Fora um erro ficar no mesmo espaço que eles
enquanto recebia as mensagens eróticas de Kênia. Tentou disfarçar da melhor
maneira possível até que resolveu que seria mais prudente desligar de vez o
celular. Aproximou-se de ambos e acabou sentando ao lado de Janine.
- Daqui a pouco começa - Vitório guardou o telefone no
bolso e pôs a mão sobre o braço gelado dela. - Não se preocupe. Esta parada é
sua.
- Só Deus sabe o quanto me sacrifiquei para chegar até
aqui. Onde está Rubia? Mandei que chegasse cedo para a foto oficial de família
feliz. Caso eu ganhe.
- Ela já está vindo. Me enviou uma mensagem agora a
pouco - com isto Vitório tentou justificar, sem sucesso, seus momentos passados
no celular pouco antes. - Amor, vai dar tudo certo.
- Não aguento mais as pessoas darem tapinhas nas
minhas costas dizendo "vai dar tudo certo"! E se não der?
Leandro e Vitório se entreolharam, constrangidos, com
a explosão da Governadora.
- Meu amor, você...
- Chega! Não quero ouvir mais nada! - e ante os
olhares surpresos do marido e do amante, Janine saiu pisando duro e se trancou
no banheiro.
*
Tadeu foi para a sede do partido e Kênia ficou em casa
remoendo a raiva que sentia do pai e do ódio por Janine estar muito próximo de
conquistar sua indicação para concorrer à presidência do país. Não conseguia se
concentrar em nada. Pouco antes das 18 horas, quando a contagem recém tinha
iniciado, Kênia pegou a chave do carro decidida a assistir a glória de Janine
cara a cara. Queria olhar direto nos seus olhos para que Janine se lembrasse de
Karla e da maneira cretina com que ela traiu a amiga de anos. Manter um relacionamento
extraconjugal com Vitório não fora o suficiente para pôr o mundo de Janine
abaixo. Vitório fora discreto demais. Chegara a hora de virar o jogo.
*
Quando Kênia chegou à sede do partido, a vitória de
Janine recém tinha sido anunciada. Uma gritaria ensurdecedora, palmas e urros
tomavam conta do ambiente. Lá na frente, sobre o palco, a Governadora,
emocionada, empunhava o microfone, prestes a iniciar o discurso da vitória.
Forçando a passagem sem muita educação e ignorando
alguns xingamentos, Kênia foi afastando com as mãos as muitas pessoas que
estavam a sua frente. Seu objetivo era alcançar a frente do palco e nada a
faria desistir de ficar cara a cara com Janine em sua noite de grande triunfo.
O discurso da Governadora era pura emoção e
empolgação, quase como se tivesse sido já eleita presidente do Brasil. Kênia
praguejou alto e empurrou mais gente ainda. Tinha urgência em chegar lá na
frente e desafiar aquela desgraçada.
A fala se encerrou quando Kênia já estava bem perto.
Ignorou o olhar furioso do pai que, de cima do palco, ao lado dos amigos e
correligionários, observava a aproximação da filha, atento. Ignorou também o gesto com
a cabeça de Tadeu ordenando que caísse fora dali. Aquilo deu à Kênia mais força
em prosseguir. Se o próprio pai a temia, com Janine e Vitório provavelmente
aconteceria o mesmo. Como estratégia de disfarce, Kênia cobriu com o capuz da
blusa os cabelos vermelhos.
Janine olhou para trás e trouxe para mais perto de si,
Rubia e Vitório. Ambos pareciam muito orgulhosos e os três eram a imagem da
família perfeita. As palmas eram quase ensurdecedoras. Feliz, o sorriso de
Janine se alargou ainda mais. Firmou o microfone com mais força nas mãos.
- Aqui estão os responsáveis pelo meu sucesso - Janine
pegou Vitório pela mão. - Meu marido, parceiro de longa caminhada. Sempre me
deu todo o suporte desde o início da minha carreira política. Já falei o quanto
ele é perfeito?
Gritos. Palmas. Celulares gravando e tirando fotos do
casal do momento trocando um beijo apaixonado.
- E esta é minha princesa - Janine puxou a filha para
junto de si. - Rubia, meu raio de sol. Peço desculpas, meu amor, por não estar
sempre presente na sua vida. - Os olhos da Governadora se encheram de lágrimas.
- Hoje vejo o quanto você se transformou nesta mulher maravilhosa.
Rubia e Janine se abraçaram ante o frenesi que se
formou. Passado aquele momento de emoção, Janine continuou:
- Quero que todos vocês saibam que estou aqui para dar
o meu melhor para o Brasil. Esta será a grande minha missão da minha vida.
Kênia parou, finalmente, frente ao palco, e tirou o
capuz bem devagar. Janine levou alguns segundos para se dar conta que a filha
de Karla estava a poucos metros. Bastava apenas olhar um pouco mais para baixo
para se deparar com Kênia e seu sorriso diabólico.
- Eu vou...
Janine interrompeu sua fala no exato momento em que
seus olhos cruzaram com os de Kênia. Em um primeiro momento, devido às vozes
altas e à empolgação das pessoas, poucos se deram conta do desconforto da
Governadora. Kênia cruzou os braços e encarou Janine, ignorando, por completo,
a presença de Rubia e Vitório. Tadeu pensou em descer do palco e arrastar a
filha pelos cabelos dali, mas desistiu em seguida. Vitório, muito pálido, olhou
para a esposa, atarantado. O que era aquilo, afinal? O que aquela maluca
pretendia? Vitório sentiu as pernas fraquejarem e esperou o pior. Ao mesmo
tempo disse para si mesmo que era um erro Janine se mostrar tão vulnerável à
Kênia.
Não demorou muito, ante o silêncio esquisito da
Governadora, um breve silêncio começou a se formar no salão. Kênia não se
moveu. Permaneceu onde estava, olhos fixos em Janine e um sorriso debochado no
rosto. Havia na expressão do seu olhar uma ferocidade que fez a Governadora
tremer. O microfone ficou mole em suas mãos e talvez tivesse se espatifado no
chão se Vitório não lhe desse um cutucão. De imediato, Janine recuperou a
postura, firmou a voz e recomeçou os agradecimentos. Kênia ficou mais uns dois
minutos na mesma posição, sem desgrudar os olhos de Janine. Depois, deu meia
volta e desapareceu entre as pessoas que aclamavam a forte candidata a governar
o Brasil.
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