CAPÍTULO 4 – O VAZIO QUE ME CONSOME
— Keny! Ei, Keny!
Kênia diminuiu o passo no corredor da faculdade ao
escutar seu apelido. A única pessoa que lhe chamava assim era Rubia. Era quase
meio-dia e ela queria ir para casa. Não encontrara Felipe para lhe tirar
satisfações e Vitório também não lhe saía da cabeça. Desde a noite anterior,
depois que visualizara os nudes, Vitório se mantinha em silêncio. Devia estar
com medo dela. Ela sabia que, geralmente, causava este tipo de reação nas
pessoas.
Rubia vinha apressada pelo corredor trazendo no
rosto uma expressão ansiosa. Cada dia mais parecida com a mãe, disse Kênia para
si mesma, lamentando. Pelo menos Rubia era bonitinha. Sem sal, mas bonitinha.
— Keny, puxa! – Rubia se aproximou e abraçou a
amiga. – Estava louca para falar com você.
As sardas no rosto de Rubia se destacavam depois da
corrida pelo corredor.
— É mesmo? O que houve?
Kênia não estava a fim de conversar. Aquela
faculdade a sufocava. Faltava, ainda, um ano e meio para se formar. Rezava para
que o tempo voasse até lá.
— Queria tanto ter ido ao jantar! Porém, eu
precisava muito estudar para o trabalho que apresentei hoje.
— Eu sei. Sua mãe me disse.
Rubia reparou no tom seco da voz de Kênia.
— Nem vi meus pais chegarem. Capotei na cama antes.
— Tudo bem. Você não perdeu nada.
— Então me conte o que você tem.
"Nada, meu anjo. Apenas estou apaixonada pelo
meu primo que, por coincidência, me odeia. Ah, e ainda quero dar uma trepadinha
com seu pai para destruir o casamento dele com a sua mãe."
— Ué, nada.
— Mas você está estranha.
Suspirando, Kênia olhou para a amiga. Rubia, uma
eterna carente.
— É o que as pessoas mais dizem para mim:
"Nossa, como você está estranha.".
— Não precisa ser debochada.
Era fácil para Rubia se magoar. Seu temperamento
dócil era completamente o oposto do de Janine.
— Não estou debochando de nada. Muito menos de você
– Kênia olhou em volta. — Só estou sufocada por este lugar.
Esperançosa, deu mais olhada para o visor do
celular. Nada de Felipe.
— Esperando alguma mensagem importante?
Os olhos negros de Rubia pareciam enxergar além de
Kênia e isto a incomodava.
Kênia revelou parte da verdade:
— O Lipe me bloqueou no WhatsApp.
— Algum bom motivo ele deve ter. O que você
aprontou de novo?
Sacudindo os ombros, Kênia respondeu:
— Só enviei umas fotos. Você vê mal nisto?
— Você não tem jeito mesmo. Vamos almoçar? Você tem
que ir embora agora?
A tarde prometia ser vazia e longa. Nem Kênia sabia
como preencher as horas tediosas que viriam.
— Posso arrumar um tempinho para você.
Rubia sorriu e se pendurou no braço da amiga,
feliz. A companhia de Kênia podia ser estressante muitas vezes, mas Rubia não
cogitava deixá-la jamais. E sabia também que Kênia precisava dela, embora não
confessasse. Ou não soubesse ainda.
— Que ótimo, Keny! Faz um tempão que não passamos
alguns momentos juntas.
— Lógico que não! Você prefere estudar a ficar
comigo!
— Penso que você deveria fazer o mesmo. Focar nos
seus estudos.
— Só o necessário. Não pretendo seguir a carreira
de arquiteta.
— Você e sua promessa infeliz.
O rosto de Kênia ficou sombrio.
— Me sinto desconfortável em quebrá-la.
— De onde sua mãe está agora duvido que ela se importe.
— Até parece que você não conhecia a louca da minha
mãe.
Com Rubia pendurada em si, Kênia entrou no
restaurante da faculdade. Imediatamente, todos os olhares se voltaram para ela.
Era sempre assim e Kênia não se importava mais. Gente sem noção.
— Este povinho me ama – desdenhou ela jogando o
cabelo para trás, teatral, e mantendo o porte altivo. — Imagina se soubessem o
que penso de cada um deles.
Rubia lhe deu um cutucão.
— Keny, olha lá. O Felipe.
— Oi?
— Filho da puta! Ele está com a vadia! Ah, mas eu
vou até lá acabar com aquela putaria.
Rubia ficou vermelha. Kênia já chamava atenção de
boca fechada. Mas, quando decidia fazer um dos seus escândalos, não havia como
ignorá-la. A passos firmes, Kênia se encaminhou para a mesa de Felipe,
desvencilhando-se de Rubia que a seguia, tensa e pálida.
— Keny, conversa com ele lá fora. Aqui não é lugar.
Kênia não escutava mais nada. Marchou até a mesa do
primo disposta a tirar satisfações. Ele só foi se dar conta que algo não ia bem
quando a namorada empalideceu.
— Bom dia, Felipe.
A voz gelada de Kênia ecoou pelo restaurante.
Lentamente, o rapaz voltou o pescoço para cima e seu sorriso congelou. Todo o
restaurante ficou em silêncio aguardando a bomba explodir.
— Bom dia – Felipe tomou um gole de refrigerante
esperando o pior. Fernanda, a namorada, fitou-o de olhos arregalados.
— Posso saber por que você me bloqueou no WhatsApp?
Kênia suportou, firme, o olhar de desprezo do
primo.
— Porque eu quis.
Rubia tentou intervir.
— Kênia, vamos sair daqui.
— Recém cheguei, Rubia – Kênia não tirava os olhos
dele. Havia uma cadeira vazia na mesa ao lado e ela a puxou, sentando bem junto
a Felipe. Fernanda levantou e saiu apressada. Felipe fez menção de ir atrás,
porém Kênia foi rápida.
— Se você ousar me deixar falando sozinha eu juro
que faço um escândalo.
Felipe odiava aquele tipo de coisa e Kênia era
mestre em se destacar pelos piores motivos. Antes que a prima começasse a
berrar, Felipe respirou fundo e a encarou, furioso.
— Não gosto dos seus shows.
— Quero que você me desbloqueie.
— Quem é você na fila do pão para falar comigo
neste tom?
— Sou a prima que você adora. Aquela que faz o
boquete perfeito e que você sempre implora por mais.
Rubia se constrangeu ao escutar as palavras da
amiga. Os amigos de Felipe, sentados à mesa, deram risada. Um deles disse:
— Cara, desbloqueie sua prima. Faça este favor a si
mesmo.
Ela fez um gesto em direção aos caras, debochada.
— Siga o conselho dos seus colegas, meu amor.
Era nítido o constrangimento de Felipe e de Rubia.
— Não quero ver suas fotos pelada. Entendeu bem?
Preciso ser mais claro que isto?
— Certo. Vamos combinar outra coisa, então. Você me
desbloqueia e eu só mando fotos vestida de lingerie.
— Eu não quero ver suas fotos. E muito menos ter
qualquer contato com você.
O salão inteiro escutou a declaração de Felipe. Kênia engoliu em seco disfarçando a dor que sentiu. Eles viviam brigando, mas desta vez o primo fora cruel. O rosto dele era uma máscara de raiva e desdém e Kênia chegou a crispar os dedos de vontade de apertar o seu pescoço. Um copo de refrigerante estava bem ao alcance da sua mão. Um segundo depois o líquido doce e pegajoso escorria pelo rosto de Felipe. Apesar de surpreso, ele ficou impassível. Não podia se dar ao luxo de retribuir a agressão. Kênia foi pega de surpresa pela sua própria impulsividade. Não queria ter feito aquilo, porém era orgulhosa demais para pedir desculpas e mostrar algum arrependimento. Permaneceu sentada olhando para Felipe esperando alguma reação. O silêncio no restaurante era total. Rubia saiu do seu estupor e puxou Kênia pelo braço.
— Agora chega. Vamos sair daqui.Desta vez Kênia não ofereceu resistência. Foi arrastada pela amiga para fora do restaurante e pouco depois estavam do lado de fora do prédio. Kênia se mantinha calada. Se a situação com Felipe já vinha complicada, agora se tornara insustentável.
— Parabéns – Rubia bateu palmas. — Agora você se superou.
— Ele mereceu – limitou-se a dizer ela, emburrada.
— Por que para você é tão difícil se controlar? Meu Deus, Kênia! Que papelão!
Kênia tentou, a duras penas, ignorar todo o vazio que sentia. Felipe se mostrava cada vez mais distante e a culpa era dela mesma. Mas não podia admitir que estava abalada.
— Quem você pensa que é para me passar sermão?
— Sua amiga. A que sempre está por perto para limpar as merdas que você faz.
— Pois não preciso de você e nem da sua amizade. Quer saber? Vou embora deste inferno.
Ela deu meia volta e tomou o rumo do estacionamento, caminhando, altiva, como se realmente aquele revés não tivesse lhe atingido.
— Keny! Não me deixe aqui falando sozinha!
Rubia chegou a ir atrás, mas se deteve. Não podia se humilhar tanto assim. Kênia sequer olhou para trás. E Rubia ficou sozinha e amargurada, observando sua amiga se afastar – em todos os sentidos – cada vez mais.
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