CAPÍTULO 11 - EU SOU MAIS FORTE QUE VOCÊS
Rubia percebeu o desconforto do pai e a expressão tensa da mãe. Com os olhos, buscou explicações no rosto da amiga tentando descobrir a razão daquilo tudo. Em vão. Kênia simplesmente a ignorara o tempo todo, apenas encarando ostensivamente Janine como se ninguém além das duas estivesse ali.
Mas assim que Kênia desapareceu no meio daquela multidão de apoiadores, Rubia abandonou o palco em busca de respostas. A mãe tinha alguma culpa naquilo tudo? Algo que pudesse explicar o constrangimento dos seus pais? O comportamento esquisito de Kênia fez Rubia correr até o estacionamento atrás da amiga. Porém, não foi rápida o bastante. A única coisa que Rubia viu foi o carro de Kênia saindo para a rua em alta velocidade, como era o seu hábito. Inconformada, Rubia pegou o celular e enviou uma mensagem no mesmo instante para Kênia.
"O que foi aquilo na sede do partido? O que está acontecendo entre você e minha mãe?"
Parada no meio do estacionamento, ela esperou por alguns minutos intermináveis que Kênia respondesse. Depois, exausta mentalmente, Rubia decidiu retornar para junto da sua mãe.
*
Kênia firmou as mãos no volante e acelerou rumo a lugar nenhum. Não estava com ânimo para voltar para casa ao mesmo tempo que sentia uma sensação de satisfação preenchendo seu peito. Janine a temera. Kênia conseguiu o feito de fazer com que uma das mulheres mais poderosas do Brasil engasgasse em pleno discurso de agradecimento. Vitório, o panaca de sempre, não disfarçou seu descontentamento. Será que ele romperia com Kênia? Era provável que sim.
O celular apitou. Kênia esticou os olhos para o visor. Era o pai. E ele estava em surto.
"O que você tinha em mente ao enfrentar Janine? Precisamos ter uma longa conversa."
Kênia não se importou. Assim como não se importou com a mensagem de Rubia também querendo explicações. Fodam-se todos, disse ela no vazio do carro. Eu sou mais forte que vocês.
O carro ganhou mais velocidade naquele início de noite, uma noite deserta. Kênia estava curiosa para saber qual o passo próximo de Janine. Tinha dúvidas se ela recuaria ou partiria para o ataque. Kênia não temia a última possibilidade. Se sentia pronta para bater de frente com Janine e acabar de vez com toda aquela empáfia e arrogância.
- Desgraçada - Kênia murmurou. - Desculpe, Rubia. Você não tem nada a ver com esta merda toda.
Quando Kênia chegou em casa depois das 10 horas da noite, bêbada e rindo pelo hall da casa, Tadeu, desgostoso, desistiu de lhe dar o sermão que tinha na ponta da língua. Subiu as escadas pisando duro enquanto a filha única, sentada no chão da sala, lhe berrava uma série de impropérios.
*
Bem mais tarde, depois que praticamente todos os correligionários já haviam saído da sede do partido, Leandro puxou Janine para o canto, pálido.
- Que merda foi aquela? Meu Deus, aquela garota é maluca!
Janine respirou fundo. Ainda não se recuperara do impacto da presença de Kênia na convenção.
- Não sei o pensar. Ela me desafiou, Leandro. Aquela infeliz quer acabar com minha candidatura.
Vitório conversava com Rubia um pouco mais afastado e, pela expressão de ambos, o assunto era o mesmo.
- Olha ele - Janine apontou com a cabeça para o marido. - Eu percebi o quanto Vitório ficou nervoso com a situação.
- O que você pretende fazer agora?
- Não sei ainda - a cabeça de Janine dava voltas. - Talvez eu tenha que agir antes que esta maluca faça mais alguma coisa para me prejudicar. Bem, vou pedir para o Tadeu dar um jeito.
- Você acha que uma conversa vai resolver o problema?- Leandro se mostrou cético. - Será preciso algo muito mais forte que isso!
Janine fechou os olhos, nervosa e pálida.
- Por favor, Leandro. Estou com a cabeça quente. Vou para casa agora e tentar assimilar tudo o que aconteceu aqui.
Leandro encarou Janine por alguns segundos e, por fim, concordou.
- Tudo bem. Você precisa realmente descansar.
- Vou resolver isso. Não cheguei até aqui para uma fedelha infeliz acabar com tudo.
Janine percebeu que a filha a fitava, atenta. Despediu-se de Leandro e aproximou-se com um sorriso cansado do marido e de Rubia.
- Bem, foram emoções demais por hoje, não é mesmo? A única coisa que desejo é uma xícara de chá e minha cama.
Vitório colocou a mão sobre o ombro de Janine.
- Todos precisamos disso. Venha, Rubia. Vamos para casa.
Evitando os olhos inquisidores da filha, Janine ajustou a bolsa no ombro e deixou a sede do partido depois de uma vitória avassaladora.
Mas o perigo lhe rondava a cada segundo.
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