CAPÍTULO 9 - SEMPRE AMEI VOCÊ

 — Pelo nosso aniversário de dois meses.

Kênia olhou para uma caixinha que Vitório lhe estendia. Ambos estavam sobre uma grande cama, nus, em um motel sofisticado um pouco afastado da cidade.

A princípio, ela se perguntou que dois meses eram aqueles. Depois se deu conta que era o aniversário da primeira vez que transaram.

— Ah, que fofo. Você lembrou.

Ela pegou a caixinha que Vitório lhe estendia e voltou seus olhos para o amante. A expressão dele era tão apaixonada que Kênia fez força para segurar o riso. Cada dia mais se convencia que ele estava na sua mão.

Curiosa, ela abriu a caixa. Um bracelete cravejado de zircônias coloridas quase a ofuscou. Era tão lindo que Kênia fez questão de colocar imediatamente no pulso.

— Uau, Vitório. É demais! Obrigada, meu amor.

Ambos trocaram um beijo. Vitório, sorrindo, lhe acariciou o rosto.

— Você me faz tão bem... – murmurou ele.

— Separa dela.

Ele levou um susto e chegou a ir para trás.

— Como é?

Kênia o encarou, séria.

— Você é surdo, Vitório? Separa dela e fica comigo.

Vitório levantou da cama e foi até o frigobar. Voltou com uma latinha de cerveja na mão visivelmente nervoso.

— Kênia, meu amor. Estamos tão bem assim.

— Quem está bem? Você está bem nesta condição. Por que não separa da sua mulher e fica comigo?

— Anjinho, as coisas não funcionam assim.

Ele tentou beijá-la, mas Kênia o repeliu.

— Funciona de que jeito, então? Ela está longe faz três dias em pré-campanha para a presidência da república. Você estaria sozinho senão fosse por mim.

— Já pensou que estrago seria para a campanha da minha mulher se eu me divorciasse dela?

— Não estou preocupada com isso.

— Mas eu estou. Se Janine se tornar nossa próxima presidente, será muito bom para os meus negócios.

— Ah, então você está me dizendo que o casamento de vocês é baseado em grana? Negócios? Interesses?

— Você entendeu. - Vitório respirou fundo. — Não venha me dizer que está apaixonada por mim. Sei muito bem que você é louca pelo seu primo.

A menção de Felipe fez Kênia se retesar. O idiota do primo noivara fazia uma semana e ela não conseguira assimilar a novidade até então.

— Ele é passado. E agora tem uma noiva. E eu tenho você.

— E eu adoro ficar com você, minha princesa. Adoro nossas trepadas.

Realmente, o sexo com Vitório era tudo de bom. Depois da primeira vez ele se soltara e fazia questão de executar uma perfomance melhor que outra. Num desses encontros Kênia descobriu que Vitório e Janine não transavam há meses.

— Puxa, Vitório, eu quero mais. Quero você inteiro para mim. Sonho tanto em passear no shopping de mãos dadas com você. Ou levá-lo para jantar lá em casa com meu pai...

— Não, anjinho, é absolutamente impossível. Janine está muito perto de...

— Chega!

A voz aguda de Kênia o sobressaltou. Vitório a encarou de olhos arregalados.

— Kênia, veja bem...

Ela pulou da cama e catou as roupas atiradas no chão. Vitório observava a cena, atônito.

— Está maluca?

— Vou embora – Kênia terminou de se vestir e sacudiu a chave do carro na frente do rosto dele. Chegaram no motel no carro de Kênia para não despertarem suspeitas.

— Irei me vestir.

Vitório pegou a cueca amarfanhada sobre a cama, mas Kênia a arrancou das suas mãos e atirou-a dentro do vaso sanitário.

— Você não vai voltar comigo – ela apontou o dedo para o amante, furiosa. — Fique com a sua mulher. Eu vou seguir minha vida.

Era mais uma estratégia de Kênia para enlouquecer Vitório. E sempre dava certo.

— Vai ter coragem de fazer isto comigo? Como vou sair daqui?

Vitório, além de pálido, se mostrava incrédulo.

— Pegue um táxi.

Kênia pegou a bolsa.

— Você está fazendo de tudo para acabar com nosso relacionamento.

— Que isso, amorzinho! Pense bem no que está fazendo. Você está completamente equivocada.

— Sai de perto de mim – bradou ela já indo para a porta. Antes de sair, Kênia olhou para trás, debochada. — Você vai ter que ralar muito para me reconquistar.

Kênia bateu a porta com força e desceu até a garagem com vontade de rir da expressão de assustado do amante. Era um idiota mesmo. Merecia a mulher que tinha em casa. Confiante, Kênia deu a partida no motor e saiu do motel não sem antes avisar a portaria que a conta do motel seria paga por Vitório.

*

Sábado. Rubia decidira dar uma pausa nos estudos e passar algumas horas com Kênia. Ambas relaxavam bebendo chá e comendo biscoitinhos no jardim de inverno da mansão.

— Me sinto na Inglaterra tomando o chá das 5 -  comentou Rubia. — Adorei os biscoitinhos da Lola.

— É a sua especialidade – Kênia comeu mais um biscoito e perguntou tentando ser natural. — Sua mãe continua em campanha?

O questionamento foi feito com segundas intenções.

— Não chega a ser campanha ainda. Ela não foi escolhida como candidata do partido, mas é 99% certo que isto acontecerá. Não há dúvidas que é a pessoa mais capacitada neste país para assumir a presidência.

— Claro que sim.

Rubia não percebeu o tom de ironia da amiga.

— A convenção será em julho do ano que vem, mas ela está fazendo as viagens para se mostrar como candidata em potencial. Minha mãe tem o poder de conquistar as pessoas. Onde chega o povo se aproxima para ouvi-la falar.

Kênia ficou encarando Rubia por alguns segundos. Será que a amiga estava fingindo ou achava que era verdade que Janine era uma semideusa?

— E seu pai? O que ele acha disso tudo? – Kênia se serviu de mais chá.

— Ele acha ótimo. Se minha mãe for eleita os negócios da metalúrgica serão impulsionados. E, você sabe, eu vou herdar aquilo lá.

— É verdade. Não tinha pensado nisso.

Fazia dois dias que Kênia evitava Vitório como forma de castigá-lo pela briga no motel. Ele ligava, enlouquecido, enviava mensagens pedindo desculpas, mas ela o ignorava. O pedido de separação fora apenas para provocar Vitório, para deixá-lo tenso. Jamais iria querer algo mais sério com ele além das trepadas que vinham tendo. Kênia ainda disse:

— É tão bonito ver um casal com tantos anos de casamento se dar tão bem...

Rubia concordou com a cabeça enquanto engolia o chá.

— É verdade. Ah, claro que existem algumas rusguinhas. Mas é normal. Eles se entendem somente pelo olhar.

— Nossa, que legal.

Kênia estava a ponto de soltar uma gargalhada quando Lola apareceu com um enorme buquê de rosas vermelhas.

— Uau, para quem são estas flores? – Kênia se empertigou na cadeira.

Lola sorriu um pouco maliciosa.

— Não sei… Mas tem um cartão aí.

Rubia arregalou os olhos. Então a amiga tinha um admirador secreto? Bem, admiradores Kênia tinha aos montes, porém a ponto de enviar um buquê daquele tamanho lhe parecia algo inédito.

— De quem é, Keni?

Kênia não reparou no tom de voz enciumado de Rubia. Pegou o buquê que Lola lhe entregou com o coração aos pulos. E se... fosse de Felipe?

— Não faço a menor ideia.

Lola se afastou e Kênia, ansiosa, procurou o envelope fechado entre as rosas. Não podia ficar esperançosa demais. Na última semana flagrara Felipe a olhando, de longe e disfarçado, na faculdade. Achou até que fosse sua impressão.  Sentada na cadeira, Rubia não tirava os olhos da amiga. Kênia puxou o envelope do meio das flores e o abriu, afastando-o do campo de visão da outra. Suas melhores expectativas foram quebradas naquele instante.

”Perdoe-me, meu amor, se fiz algo que lhe desagradou. Sinto saudades. Atenda minhas ligações.

Vitório”.

— E aí? – Rubia mal podia se conter. — Quem é o sortudo?

Tentando disfarçar a decepção e rasgando o cartão em mil pedacinhos, Kênia retrucou:

— Ninguém interessante.

— O quê? Você não vai me contar?

Kênia olhou para Rubia. Reparou que a amiga parecia irritada.

— Qual é, garota? Não tenho que contar tudo para você.

De imediato, Kênia se arrependeu das palavras duras ditas para Rubia. A decepção por não ser Felipe havia sido forte demais.

— Nossa, Keni. Que estupidez.

— Ei, desculpe. Foi mal.

— Desculpo se você contar quem é

Kênia encarou Rubia sem um pingo de paciência.

— Não posso.

— Por quê?

— Porque não.

— Foi o Felipe?

Uma risada amarga brotou dos lábios de Kênia.

— Adoraria. Mas não foi ele.

— Certo. É um amor proibido?

— Meu Deus, Rubia! Pare de insistir! Este assunto é meu!

— Um grande assunto a contar pelo tamanho do buquê.

— E se for um amor proibido? O que você tem a ver com isto?

— Tudo. Só queria que você confiasse em mim o bastante para me dizer quem é. Afinal, amigas trocam confidências.

— Bem, a questão é que não sou obrigada a contar tudo da minha vida para você. Conforme-se com este fato.

Rubia chegou mais para frente.

— Você adora tripudiar sobre mim.

— Não é verdade.

— Keni, fiz sempre tudo por você. Eu lhe protejo, defendo, cuido. Onde você vai arranjar uma amiga como eu?

— E eu fico muito agradecida. Porém, eu…

— Eu daria minha vida pela sua.

Kênia revirou os olhos.

— Que legal, Rubia – ela tentou moderar o tom de ironia na sua voz. — Você está me emocionando.

— Eu sempre fui apaixonada por você.

A xícara de chá quente de Kênia escapou das suas mãos e se estatelou no chão.

— Oi? – a voz aguda de Kênia soou alta demais.

— É o que você ouviu! – Rubia ficou em pé, rosto vermelho e lágrimas nos olhos. — Você é tão egoísta que nunca se deu conta. Só tem olhos para o Felipe que não está nem aí para sua existência! Nós faríamos um lindo casal, Keni!

— Você é minha amiga há anos – Kênia respirou fundo. — Sabe muito bem que não tenho tendência lésbica. Que história é esta, Rubia? Pelo amor de Deus!

Kênia continuou sentada enquanto Rubia derramava lágrimas a sua frente.

— Não fale assim comigo!

— Ei, estou falando normal. Acalme-se. Quer outra xícara de chá?

Rubia sentou. Parecia à beira de um surto. Olhou por algum tempo para suas unhas e depois voltou a encarar Kênia.

— Você me magoou.

Kênia pôs o buquê de lado com a paciência totalmente esgotada.

— Chega, Rubia. Deu. Vamos parar com este drama.

— Você chama meu sentimento de “drama”?

— Para de deturpar as coisas!

As vozes se elevaram. Kênia queria encerrar o assunto de uma vez por todas.

— Quer saber? – Rubia virou para o lado e pegou a bolsa. — Vou embora.

— Então vá – Kênia apontou para a porta, furiosa. — Quando você conseguir conversar como uma pessoa adulta, pode voltar.

Rubia saiu pisando duro sem olhar para trás e quase atropelou Lola que, atraída, pelos gritos, apareceu para ver o que acontecia.

— Nossa, Kênia! O que deu na sua amiga?

— Nada que valha a pena contar – suspirou Kênia ainda chocada com as revelações da amiga.

 

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