CAPÍTULO 8 - FICA COMIGO ESTA NOITE

 Aquela tarde de sábado era como outra qualquer. Enfadonha. Kênia ficou na piscina da mansão até a pele murchar. Estava sozinha. Podia ter convidado Rubia para passarem aquelas horas juntas, mas a amiga só pensava em estudar e falar da faculdade. Kênia, então, optou pela solidão. Volta e meia Lola, talvez em sua própria vida tão solitária quanto Kênia, aparecia com algum suco ou petisco. Mas ela não sentia fome. Pensava em Felipe. O que ele estaria fazendo? Trepando com a vadia dele? Cada lembrança era uma pequena pontada no peito. O imbecil continuava a ignorando na faculdade. Kênia fazia que não se importava. Ligaria para Vitório na próxima semana para tentar um novo encontro. Lógico que ele iria aceitar.

- Ei, K!

A voz de Tadeu na outra ponta da piscina fez com que ela desviasse sua atenção. Já começava a escurecer. Ela nadou até o pai e se apoiou na borda. Os cabelos vermelhos se espalharam pela água.

- Oi, quer mergulhar?

Ele ignorou a pergunta feita em tom de deboche.

- Qual seu programa para agora à noite?

Kênia estranhou a pergunta.

- Nadar até morrer.

- O voo da Gabi atrasou. Por que não assistimos a uma série juntos?

Situação inédita. Kênia não lembrava a última vez que fizera um programa daquele tipo com o pai. Ou com a mãe. Em um primeiro momento ficou muda, surpresa. Depois balançou a cabeça, concordando.

- Seria legal. Há tempos que não fazemos nada juntos.

Ela saltou da piscina e pegou a toalha que o pai estendia.

- Vou fazer uma pipoca para a gente - ele anunciou.

Tadeu se mostrou animado. Nos últimos tempos ambos viviam em pé de guerra e disputas. 

- Faça um balde de pipoca doce - pediu Kênia. - Preciso adoçar minha vida.

Kênia correu até o quarto e tomou um banho rápido. A noite teria tudo para ser agradável se nenhum começasse a implicar com o outro. Quando retornou já encontrou o pai bem acomodado na sala de vídeo procurando uma série do gosto de ambos. Seu humor era ótimo e logo tratou de passar o balde de pipoca para a filha.

- Sei de uma série de terror que você vai adorar.

- Legal - ela sentou na poltrona macia e encheu a boca da guloseima.

Cinco minutos depois Tadeu encontrou o que queria e sentou ao lado de Kênia. A série realmente era boa e tudo ia bem até que Lola bateu à porta e entrou.

- Senhor Tadeu, a Gabi está chegando.

- Sério?

Kênia quase engasgou com a pipoca. Olhou para a cara de deslumbre do pai e se enojou.

- Mas como? - ele se mostrou surpreso. - O voo dela estava atrasado.

Gabi surgiu à porta da sala de vídeo, sorridente.

- Adivinha quem chegou mais cedo, meu docinho! - a voz de Gabi era puro miado.

Kênia permaneceu sentada e emburrada assistindo a cena ridícula do pai trocando beijos quentes com a peguete da ocasião. O prazer de assistir à série se evaporou. Era demais para ela escutar as declarações de amor do casal. Kênia colocou o balde de pipoca de lado, levantou da poltrona e saiu da sala de vídeo sem ser vista, frustrada e magoada. Encontrou Lola na cozinha preparando alguma coisa para servir aos namorados.

- Oi, K. Quer que eu faça uma comidinha para você também ou vai ficar só na pipoca?

- Veneno. Você tem? Quero servir para aqueles dois.

Sem falar mais nada, Kênia pegou um copo de água e subiu para o quarto. Ainda era cedo, passava um pouco das nove horas da noite. E aquela noite estava incrível demais para ficar sozinha no quarto desejando que o pai e a namorada implodissem.

Com a chave nas mãos Kênia desceu as escadas em silêncio meia hora depois e foi direto para o carro. A partida foi a de sempre, veloz, como se estivesse em uma pista de corrida. Por quarenta minutos trafegou a esmo pela cidade. A balada corria solta. Grupinhos de amigos se formavam em esquinas, na frente de bares e casas noturnas. Era muita gente animada e feliz. Em meio ao seu buraco existencial, Kênia se perguntou quantas pessoas estariam sentindo o mesmo que ela. Talvez a única diferença fosse que conseguiam disfarçar melhor. Naquela noite Kênia não tinha ânimo, não queria e nem conseguiria fingir uma felicidade que quase nunca existiu.

Quando parou em uma sinaleira lembrou de ir atrás das redes sociais do primo. Ávida, pegou o celular e logo se deparou com uma foto postada há menos de 15 minutos. Felipe estava em uma casa noturna badalada, a mais famosa naquele momento na cidade. Kênia deu meia volta e partiu para lá. Não deu para saber se a namorada o acompanhava. Porém, quem se importava com ela?

O carro parou frente ao lugar e logo um manobrista apareceu. Kênia conhecia o dono, empresário influente e amigo do pai. Sem olhar para a fila que se estendia pela calçada para entrar na casa, Kênia teve acesso liberado imediatamente. Logo se viu em um espaço amplo, cheio de luzes e som alto de música eletrônica. Não havia ainda muita gente, contudo Felipe não estava visível. Bem, era melhor beber alguma coisa antes de partir para a caça.

- Olá, Kênia. Há tempo que eu não a via por aqui.

O barman era um gato. Otávio não se furtava de mostrar os músculos bem definidos. Era gay. Uma lástima, pois Kênia já fizera várias investidas naquele corpinho. Sem chance.

- Me dá uma tequila - pediu ela encarando-o firme. - E você, hein? Cada dia mais gostoso.

- O mesmo digo para você, gata. O que tem feito da vida?

Otávio começou a preparar a bebida.

- Eu? Planejando uma vingança para derrubar pessoas poderosas, dormindo com meu amante na cama de casal dele e levando block do meu primo. Quer mais?

- Uau, vida movimentada.

- Falando em primo - Kênia olhou para os lados. - Descobri que ele está aqui, agora. Você o viu por aí?

- Impossível não ver aquele deus - Otávio entregou a bebida para ela. - Ele foi para o lado de lá.

O barman apontou para o terraço. Kênia tomou um gole.

- Beleza. Com a vaca?

- Só o vi rodeado de homens héteros e lindos.

- Excelente informação. Até daqui a pouco.

Decidida, Kênia abriu a porta que dava para o terraço e subiu as escadas mal iluminadas. Antes mesmo de chegar lá em cima escutou risadas e falatório. A voz metálica de Felipe se distinguia com perfeição.

Ele e os amigos estavam encostados na mureta do terraço, bebendo e fumando. Kênia se aproximou devagar. Felipe estava de costas. Queria dar um susto nele, de brincadeira, como se entre eles estivesse tudo bem. Um amigo, no entanto, deu o sinal.

- Lipe, acho que você tem visita.

Felipe se virou de sorriso aberto e que ficou congelado quando se deparou com a prima tão próximo dele. Um a um, sabendo que fagulhas explodiam quando ambos se encontravam, os amigos foram saindo, deixando os dois frente a frente.

- Oi, Lipe. Coincidência encontrar você por aqui.

Ela tomou o último gole de tequila. Precisava de mais três copos para começar a se divertir a valer.

- Está me seguindo?

- Eu? Claro que não. E fale direito comigo. Por que toda esta frieza?

O perfume de Felipe deixou Kênia mais excitada ainda.

- Depois de tudo o que você aprontou quer que eu a receba como? Com pétalas de rosas?

- Com beijos.

Felipe tomou um bom gole da latinha de cerveja que trazia em uma das mãos.

- Vai sonhando.

- Você sabia que tudo o que quero, eu consigo? E eu quero você.

- Sinto muito lhe dizer que desta vez seu poder mágico vai falhar.

Era impossível para qualquer homem, inclusive para Felipe, não reparar na beleza de Kênia, especialmente naquela noite. O vestido branco era feito de um tecido leve, transparente onde deveria ser. O exuberante cabelo vermelho caía em ondas pelos ombros.

Mas era Kênia. E sua prima era louca.

- Cadê sua namorada?

- Em casa. Com cólica.

- Humm, que desculpinha idiota para não sair com você.

- Não é desculpa.

- E se ela estiver com outro cara?

- Nunca - Felipe negou, irritado. Mas Kênia percebeu que havia plantado a sementinha da dúvida no cérebro dele. - Ela é diferente de você.

- Graças a Deus. Vocês não combinam em nada. Felipe, vou lhe dizer uma coisa. Eu posso fazer você tão feliz que quando ficar comigo de vez se arrependerá de não ter vindo pra mim antes.

- Cada vez mais eu chego à conclusão que meu tio Tadeu deve levar você a um psiquiatra. Aliás, um não irá dar conta. Será preciso uma junta médica.

Felipe fez menção de ir embora, mas Kênia bloqueou a passagem com seu corpo.

- Por favor, não vá - ela pediu e desta vez seu tom de voz surpreendeu o rapaz. - Não me deixe sozinha você também.

Ele nem se mexeu. Pela primeira vez na vida teve a impressão que a prima tinha sentimentos. Os olhos dela pareciam implorar para que ele ficasse. O lábio inferior de Kênia deu uma leve tremida. O quê? Era sério aquilo? Kênia iria chorar? Precisava ficar ali para ver até onde a prima era capaz de ir.

- O que houve? - ele indagou, por fim.

- O filho da puta do meu pai - Kênia firmou a voz. Jamais iria chorar na frente de Felipe. - A Gabi estava viajando e ele iria passar a noite comigo. A gente só ia assistir a uma série na TV, sabe? Bem coisa de família. E... família é algo que nunca tive.

Felipe permaneceu em silêncio escutando o relato. Era surpreendente Kênia se abrir daquele jeito. Seria encenação? Aquilo brilhando no canto do olho dela era uma lágrima? Meu Deus!

- A série já havia começado quando a vadia apareceu do nada. E minha noite com papai simplesmente acabou por ali mesmo. Ele optou por ficar com ela.

- Bem, eu... Eu sinto muito, Kênia - o rapaz não sabia bem o que dizer. - Mas é aquela coisa, né? Eles são namorados e estavam com saudade um do outro.

- Acontece que sou filha dele. Cheguei primeiro.

- Sério, Kênia. Dou total razão a você.

Ambos se calaram e se encararam por alguns segundos. Kênia, se sentindo um pouco arrependida por ter falado demais, desviou os olhos primeiro. Felipe ainda tentava digerir o relato doloroso da prima.

- E aí eu vim parar aqui - Kênia fez um amplo gesto com a mão. - Não sabia que ia lhe encontrar.

Constrangido, Felipe tomou um gole da cerveja. Kênia foi em frente:

- Você também vai ter coragem de me deixar sozinha, Felipe? Será que eu mereço terminar este sábado dos infernos sozinha?

- Kênia - Felipe pigarreou. - Tem um monte de caras por aqui que dariam um dedo para ficar com você.

Ela o encarou, irônica.

- Não quero outros caras.

Felipe já sabia o que viria pela frente.

- Olha aqui, eu...

- Fica comigo esta noite.

- Porra, Kênia.

- Deixa eu terminar. Fica comigo e eu nunca mais perturbo você. - Ela mentiu tão séria que Felipe ficou na dúvida. - Sua namorada nunca irá saber.

- Por que não acredito em você?

Kênia o puxou para mais perto, amassando a camiseta dele.

- Você não é obrigado a acreditar.

Felipe não recusou o beijo doce que Kênia ofereceu. Depois de um tempo ela olhou para o lado como se procurasse alguma coisa.

- Eu sei que tem um depósito desativado por aqui. O que você acha?

- Acho que é loucura. Puta que pariu, Kênia.

Ele a puxou pela mão. Sabia onde era o lugar ao qual a prima se referia. A porta estava apenas encostada. Felipe empurrou Kênia para dentro e em seguida ambos iniciaram um sexo selvagem e barulhento. Kênia não soube dizer quanto tempo ficaram ali. Mas foi o bastante para se apaixonar ainda mais e Felipe somente se satisfazer.

Quando Felipe terminou de fechar o zíper da bermuda, Kênia levantou do chão frio de onde o observava e se jogou nos braços dele. Felipe, contudo, fez um gesto, ainda que delicado, para ela se afastar.

- Agora deu, Kênia.

- Como assim "deu", meu amor? Fiz a sua noite se tornar incrível. Vamos embora juntos. Lá pra casa.

- Você disse que iria parar de me perseguir. Eu escutei isto vindo da sua boca.

Felipe não estava muito à vontade, além de um pouco arrependido e ansioso para sair dali.

- Eu quero dizer que a noite ainda não acabou, meu amor.

- Acabou para nós.

O rosto de Kênia ficou sério e tenso. Felipe temeu que ela surtasse ou tivesse outra crise de carência.

- Foi bom. É isto que você precisa ouvir?

- "Bom". Foi muito mais que isto, Felipe. Percebi pelos seus olhos.

- Kênia, você não me conhece. Entenda isso. Certo, foi muito bom transar com você. Mas eu tenho uma namorada. E a amo.

- Imagino o tamanho do seu amor quando não é nem capaz de resistir a uma mulher que você diz odiar.

Ele respirou fundo e arrumou o cabelo. Ajeitou a camisa ansioso para pôr fim àquele encontro.

- Bem, vou indo. A gente se vê por aí.

Kênia mal acreditou quando ele abriu a porta do depósito e desapareceu, deixando-a sozinha e sem palavras. Ficou mais algum tempo no depósito assimilando o que Felipe dissera. 

- Infeliz - bufou em meio a uma onda de raiva que ameaçava lhe sufocar. - Que noite dos infernos.

Do lado de fora ela escutou algumas vozes e esperou que se afastassem para poder sair dali. Precisava beber. E era exatamente aquilo que iria fazer.

                                                                     *

Karla detestaria saber que sua única e bela filha não tinha a menor vergonha de se embebedar sozinha em um bar de uma casa noturna famosa. Àquela altura Kênia não se importava com mais nada. Otávio a divertia com algumas piadas e ela ria de tudo, escandalosa, jogando a cabeça para trás. As pessoas a olhavam, curiosas. 

Um toque suave no braço a surpreendeu em meio a toda sua loucura. Felipe teria voltado? Kênia se voltou para o lado e deu de cara com Rubia.

- Ué... Você por aqui?

Kênia bateu no balcão do bar com a mão espalmada.

- Me vê mais algumas doses.

Rubia fez um gesto para Otávio.

- Não. Ela já bebeu demais.

- Escuta aqui, sua vadia - Kênia se voltou para a amiga enrolando a língua. - Você pensa que manda em mim?

Rubia não respondeu, encarando, paciente, a amiga bêbada.

- Como você veio parar aqui? Sei que você odeia este lugar, Rubia.

- Felipe me ligou.

- O quê?

O hálito de álcool fez Rubia trancar a respiração.

- Ele pediu para que eu viesse até aqui cuidar de você.

- Quanta gentileza - ironizou Kênia.

- Felipe me contou... Sobre vocês.

- Ah é? Contou também que me deixou sozinha num depósito imundo?

Rubia olhou em volta. Alguns homens não tiravam os olhos de Kênia. Bêbada, era alvo fácil para algum tipo de violência.

- Vem, você já bebeu o suficiente por um ano. Vou levá-la para casa.

- Uau, que amiga boazinha eu tenho.

Apesar de tudo, Kênia se deixou levar pelo braço e com as pernas trocadas chegou até o lado de fora. Enquanto esperavam o manobrista, Rubia avisou:

- Vou dirigir o carro.

- Ah, mas não vai mesmo. Ele é muito tecnológico para suas aptidões. Eu dirijo.

- Escuta aqui, Keni. Você está podre de bêbada. Eu vou assumir a direção do carro. E cale esta boca.

Kênia ironizou mais uma vez:

- Que brabeza.

Rubia não teve dificuldade em dar a partida no carro. Kênia se recostou no assento e respirou fundo o ar que entrava pela janela.

- Ele transou comigo.

- Eu sei.

- E desta vez não estava bêbado.

- Percebi.

- Também disse que foi muito bom.

- Sério, Keni? Seu primo falou isso?

- Sim, antes de me dar o centésimo chute na bunda. Encosta que eu vou vomitar.

Meia hora depois Rubia estacionou o carro na garagem da mansão da amiga. Kênia, depois de ter vomitado litros de tequila, parecia um pouco melhor.

- Acho melhor você tomar um banho - Rubia aconselhou enquanto subiam as escadas.

Apoiada no braço da amiga, Kênia retrucou:

- Estou com dor de cabeça. Não vou tomar banho porra nenhuma.

- Você vai se sentir melhor. Keni, você está fedendo.

- Foda-se.

- Quer acordar seu pai berrando deste jeito?

- Ele que se exploda.

Rubia decidiu se calar e acompanhou Kênia até o quarto onde, simplesmente, ela desabou na cama de cara no colchão, sem glamour nenhum. Rubia ficou algum tempo observando a amiga, em um misto de pena e irritação. Depois, deu meia volta e foi embora.



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