CAPÍTULO 7 - VAI MORRER COMIGO
Da sala ao lado Leandro escutou o tom de vozes alteradas vindas do Gabinete. Pouco depois Vitório passou frente à porta com uma expressão esquisita e com a camisa amarfanhada. Calado, não se despediu de ninguém. Leandro foi até a ante-sala do Gabinete e se deparou com Rosaura, a secretária particular de Janine com os olhos arregalados. Ambos faziam parte do círculo íntimo da Governadora.
- O que houve, Ro?
- Briga feia - a secretária falou em tom baixo - Ela enxotou o Doutor Vitório do Gabinete.
Ele decidiu verificar o que estava acontecendo. Deu duas batidinhas na porta e entrou. A Governadora se mantinha no meio da sala, bufando. Leandro fechou a porta e tentou amenizar a energia carregada.
- Parece que alguém perdeu um botão.
Havia um botão da camisa de Vitório perdido no meio do carpete. Janine retrucou:
- Jogue no lixo.
Ela deu meia volta e sentou em sua cadeira, em silêncio. Leandro se aproximou e se instalou frente a ela.
- Então... qual o motivo da sua raiva?
- Vitório - Janine estava pálida. - Fui traída.
Leandro ficou boquiaberto.
- Como assim?
Janine respirou fundo e prosseguiu:
- O imbecil me pôs um par de chifres. Estou me sentindo um alce.
- Certo. Acalme-se. Como você descobriu?
- Pela cara deslavada dele e pelo cheiro que exalava. - Janine fez uma cara de nojo. - Ele sequer teve a decência de tomar banho depois.
- Agora entendi porque Vitório saiu apressado da palestra...
- Claro! Também achei anormal ele sair daquele jeito.
- Reparei que ele ficou estranho depois de receber uma mensagem. Se alvoroçou. Foi minha impressão.
- Impressão correta - Janine se serviu de chá de camomila na tentativa de se acalmar.
- Você desconfia quem é?
Janine tomou um gole e olhou para Leandro.
- Kênia.
- A amiga da sua filha?!
- A própria.
- Tem certeza?
Em poucas palavras Janine relatou a Leandro o que havia se passado no maldito jantar da semana anterior na casa de Tadeu.
- Naquela noite ela extrapolou todos os limites. Ela é um monstro, Leandro. O terrível de tudo isto é saber que meu marido não foi capaz de controlar seus impulsos e cedeu ao ataque dela tão facilmente. Leandro, eu quero concorrer à Presidência do país! Todo meu plano de governo é baseado na moral e bons costumes, na união da família! As pessoas gostam disso. E se o casinho freelancer do Vitório cair na mídia? Com que cara eu fico?
Janine fez uma pausa para respirar e prosseguiu:
- No meu caso, aliás, no nosso caso, estou no controle. Porém, eu sei muito bem o que a Kênia quer. Seduzir o Vitório para me destruir.
- E existe algum motivo forte para Kênia odiar tanto você?
Ela desviou os olhos. Fingiu que examinava alguns documentos para depois sair pela tangente:
- Nunca nos gostamos. Deve ser coisa de outras vidas.
Leandro jogou a cadeira para trás e ficou em pé. Deu a volta na mesa, aproximou-se dela e a puxou pela mão. Janine ficou em pé, ambos muito próximos um do outro.
- Amor, talvez seja o momento de você tomar uma grande decisão. Antes que seja tarde demais.
Janine chegou a piscar. Sentiu o perfume do amante tão próximo que fez força para não fechar os olhos e beijar o pescoço dele.
- Que decisão, Leandro? Mais uma? Ora, faço isto todos os dias.
- Não se faça de boba. Você sabe do que estou falando. Se divorcie dele. Vitório nunca esteve a sua altura.
- Está louco, Leandro? Eu passo para meus eleitores a imagem de uma família feliz. Se eu aparecer com um divórcio neste momento vai pegar muito mal. Meus adversários políticos vão me torpedear dizendo que se eu não consigo manter uma família unida, como terei condições de governar um estado? Ou um país? Meus eleitores não irão entender.
- E você acha que eles irão entender o que se passa entre nós, caso nosso relacionamento vaze?
O rosto de Janine endureceu mais.
- Só irá acontecer se você abrir a boca. Eu tenho controle total sobre a situação.
- Opa. Quer dizer que nosso relacionamento é uma "situação"?
- Ah, Leandro... - Janine já perdia a paciência. - Você sabe o que quero dizer.
- Eu amo você - Leandro pegou as duas mãos dela e as beijou. - Você é tudo o que eu sempre procurei numa mulher. Inteligente, culta, poderosa. Sexy demais. Linda. Separe daquele bundão e fica comigo. Vamos ser um casal da porra.
- Sem condições. Você pirou. Eu dar um chute na bunda do Vitório para lhe assumir é um atestado de burrice.
Aborrecido, Leandro voltou para a cadeira onde estava sentado.
- E o que você pretende fazer em relação à pulada de cerca do seu excelentíssimo esposo?
- Partir para a porrada. E se tiver que dar um jeito naquela putinha, pode ter certeza que é exatamente o que eu farei. Não será Kênia que ira destruir minha carreira política.
- Uau, fiquei com medo agora - retrucou Leandro um tanto irônico.
- Então pode começar a tremer. O que é para ser meu vai morrer comigo.
Comentários
Postar um comentário