CAPÍTULO 6- VOCÊS SÃO PATÉTICOS
O sentimento de satisfação
por ter feito sexo na cama de Janine durou exatos cinco minutos. Kênia segurou
com força a direção do carro enquanto trafegava pela avenida não tão
movimentada no meio da tarde. O vazio, seu velho conhecido, começou a dar
sinais de vida no estômago em forma de uma dor profunda. Pouco depois atingiu
em cheio seu coração.
— Filho da puta – Kênia
bateu com força o punho fechado no volante. Ela não sabia a quem era dirigido o
palavrão. Se para Vitório ou para Felipe.
Ah, havia sido bom transar
com Vitório. Ele era bom naquilo. Sua vingança contra Janine recém estava
começando. Kênia não pretendia parar. Mas o vazio que sentia era algo
avassalador. Era uma lástima não ter passado algumas horas com Felipe. Era
certo que ele a evitava na faculdade, desviando o caminho sempre que a via.
Mas, por algum motivo (esquecimento ou proposital), Felipe não a bloqueara nas
suas redes sociais. O primo postava todos seus movimentos e a tudo Kênia
acompanhava. Quando ele viajara para a serra com a namorada no último final de
semana, Kênia desejou que eles sofressem um acidente na estrada. Infelizmente,
os dois voltaram, aparentemente, apaixonados e felizes. Vivos, inclusive.
Nunca Kênia desejou tanto
uma garrafa de uísque para beber até, literalmente, cair. E que a
deixassem no chão para que ela pudesse mostrar que sempre poderia levantar
sozinha. Kênia chegou a diminuir a velocidade para entrar em um bar, já em um
bairro afastado. Mas desistiu.
Talvez o melhor fosse
dormir. Lembrou dos remédios que a mãe usava para pegar no sono. Eles
continuavam no armário do quarto de Karla.
— Ah, Vitório. Vitório, seu
bosta - ela fungou. Não esperava que fosse se sentir daquele jeito. E o
comportamento do cara pós sexo fora simplesmente desprezível. Nossa, que homem
era aquele? Kênia respirou fundo, contudo, disposta a prosseguir com seu plano.
— Você quer a presidência do Brasil, querida? Perguntou para mim se eu
deixo?
Os minutos que faltavam
para chegar em casa foram o bastante para se recuperar e até fingir alguma
serenidade. Lola a estava esperando na sala, de braços cruzados.
— Por onde você andou, K?
Achei que você viria almoçar em casa. E tem celular pra que se ele fica
desligado?
— Oi, Lolita – Kênia a
beijou na testa. — Precisei resolver algumas
questões por aí.
— Não me diga que foi procurar um estágio?
Kênia soltou uma risada.
— Você está doida? Claro que
não. Fui fazer coisa melhor.
— Dona Karla ficaria tão
orgulhosa se você reabrisse o escritório.
Sem olhar para trás, Kênia
começou a subir a escadaria. Lágrimas voltaram aos seus olhos. Lola não poderia
vê-las.
— Esquece, Lolinha. Preciso
descansar. Não me espere para jantar.
Ela desapareceu escada
acima e foi direto para o quarto de Karla. O lugar continuava igual. O trabalho
dos empregados era manter o quarto limpo e impecável. As roupas de Karla continuavam
no closet e os perfumes na bancada do banheiro. Tudo intocável. Foi para lá que
Kênia se dirigiu disposta a tomar algum remédio para dormir deixado ali para
sempre. Abriu o armário espelhado e logo encontrou o que procurava. Nos últimos
dias de vida Karla tomava os remédios para dormir mais e sofrer menos. Com a
mão trêmula, Kênia pegou três pequenos comprimidos e os engoliu, a seco. Depois
se deitou na cama grande e macia, a mesma que Karla havia morrido. Talvez Karla
estivesse no quarto agora. Tadeu volta e meia resmungava que escutava sussurros
e passos pela mansão, sempre atribuindo os sons estranhos à falecida esposa. Já
Kênia alegava que aqueles ruídos sobrenaturais só aconteciam quando Tadeu
exagerava na bebida.
Kênia já chegou na cama
grogue. Era tudo o que precisava. Dormir até morrer para depois voltar à vida
com uma gana de vingança ainda maior.
Vitório estava dentro do
carro tomando o rumo da empresa quando recebeu uma ligação da secretária da
Governadora. Janine queria sua presença no Gabinete. Urgente. Ele deu meia
volta na esquina, ainda tenso, e rumou para o Palácio do Governo. Precisava
relaxar. Pegou um maço de cigarros esquecido dentro do porta-luvas e fumou três
em sequência. Além da tensão, tinha que disfarçar o cansaço depois do ritmo
alucinante que estivera envolvido até pouco tempo atrás. Kênia era insaciável.
Será que era sempre assim?
Vinte minutos depois
Vitório chegou ao Palácio e foi conduzido ao Gabinete. Janine estava sentada à
mesa com os óculos apoiados no nariz.
— Onde você estava, Vitório? Saiu da minha palestra
como se fosse tirar o pai da forca.
— Recebi uma ligação da empresa e…
— Que cheiro é este?
Vitório lembrou que não tomara banho depois do sexo
e continuava com a mesma roupa. Sem falar no fedor de cigarro que deveria estar
exalando por todos os poros.
— Hein?
Estratégicamente, permaneceu no mesmo lugar,
afastado da esposa em distância que considerou segura. Não adiantou. Janine deu
um salto da sua cadeira e se dirigiu até ele com uma expressão muito
desconfiada.
— Este cheiro desagradável está poluindo meu
gabinete.
— Amorzinho, posso garantir que não é de mim.
Janine pegou a manga da camisa do marido e aspirou.
Com uma careta fungou a parte da frente. Vitório mal respirava.
— Posso garantir duas coisas – a voz de Janine soou
gélida aos ouvidos dele. — Você fumou um cigarro vagabundo e fez sexo com
alguma vadia.
— Como é? – ele tentou bancar o ofendido. — De onde
você tirou esta ideia?
— Ou quem fumou foi a puta?
Um silêncio constrangedor se formou entre eles.
— Sim, eu fumei um pouco. Só isso.
— Fumou com quem? E este cheiro de sexo que está
impregnado na sua roupa?
— Não tem cheiro nenhum, Janine!
Janine abriu a camisa à força e vários botões
rolaram pelo carpete do Gabinete. Ela enterrou a cabeça no peito do marido e aspirou
fundo.
— Que nojo, Vitório. Alguém montou em cima de você.
— Você está delirante, Janine – Vitório se sentia
extremamente desconfortável.
Vários tapas explodiram no seu peito, ombro e
rosto. Ele se encolheu e puxou a camisa tentando se defender das agressões da
mulher.
— Janine, pare com este escândalo. Se quiser
brigar, deixe para fazer isto em casa.
— Eu não posso acreditar, seu canalha, que você
ousou me trair!
— Engano seu. Que traição, Janine? Eu estava em uma
reunião, precisei dar uma fumada e…
Outro tapa vibrou, desta vez ao lado da orelha.
Vitório se encolheu de novo esperando uma surra.
— Seu idiota. Quer acabar com minhas pretensões
politicas? Você sabe muito bem que toda minha plataforma política se baseia em
torno da “família”. Graças as minhas posições neste sentido que cheguei onde
estou! E agora com seu comportamento asqueroso quer pôr tudo a perder?
— Jamais, meu amor! – Vitório levou as mãos à
cabeça. — Sigo lhe apoiando na sua carreira política como sempre fiz. Não há
nenhuma mulher na jogada!
— Fora daqui! – Janine apontou a porta do Gabinete.
— Desapareça da minha frente antes que eu acabe com a sua raça.
Vitório achou melhor se manter calado. Já estava
bem encrencado. Catou alguns botões no chão, fechou a camisa como pôde para
disfarçar o peito desnudo e saiu do Gabinete. Janine voltou para sua mesa e
apoiou a cabeça nas mãos.
Maldito seja.
*
Tadeu chegou por volta das oito horas da noite,
sozinho. Lola, como sempre, aguardava-o, atenciosa.
— Boa noite, Doutor Tadeu.
— Boa noite, Lola. Vou tomar um banho e descer para
o jantar. Onde está Kênia?
— No quarto. Mas avisou que não vai jantar hoje.
— Ah, vai me fazer companhia, sim. Hoje estou
sozinho e detesto comer olhando para as paredes.
Ágil, Tadeu subiu as escadas e foi direto para o
quarto da filha. Bateu duas vezes na porta e esperou resposta. Estranhando o
silêncio, decidiu entrar. Abriu a porta, devagar. Kênia não estava ali.
— Filha?
Nada. Tadeu foi até o banheiro. Vazio. Já um pouco
preocupado, se dirigiu ao closet. Nem sinal dela. Ele já pensava em descer e
procurar no andar de baixo quando se deu conta onde Kênia poderia estar.
Apressado e um pouco irritado, se encaminhou a passos largos até o quarto de
Karla. Empurrou a porta entreaberta e se deparou com Kênia em sono profundo na
cama da mãe.
— Kênia!
A voz soou áspera com o intuito de despertá-la. Sem
sucesso. Ela sequer se mexeu. Não era a primeira vez que a filha fazia aquilo.
Tomar os medicamentos de Karla era a maneira de Kênia desaparecer do mundo por
algumas horas. Tadeu, contudo, temia que algum dia Kênia ingerisse mais
comprimidos para dormir que o necessário e nunca mais acordasse.
Suspirando, Tadeu sentou na poltrona macia que um
dia fora da sua esposa e passou a velar o sono da sua única e complexa filha.
*
Kênia acordou por volta das sete horas da manhã do
dia seguinte. Em um primeiro momento não se deu conta de onde estava e sentou
na cama, abrupta. Deu de cara com o pai a observando, carrancudo.
— O que você está fazendo aqui?
— Vim conferir se você não havia se entupido de
remédio a ponto de partir desta para melhor.
O estômago de Kênia roncou forte.
— Não tenho intenção de morrer tão cedo. Ou você
acha que eu vou deixar a grana a que tenho direito para as suas putas?
— Escute aqui, K, nós...
— Tenho ou não tenho razão?
Tadeu ficou em pé. Sua filha estava muitíssimo bem
e ele não estava disposto a bater boca de manhã cedo.
— Vou pedir para a Lola preparar alguma coisa para
você comer. Quem sabe assim você se acalma?
— Não pense que fugindo do assunto vai facilitar
sua vida, pai. Você não facilitou a dela.
A princípio Tadeu silenciou. Kênia se referia à
mãe.
— Já está mais do que na hora deste assunto ser
encerrado.
— Eu vi.
— Porra, K! Você viu o quê?
— Você comendo a Janine aqui mesmo – ela bateu a
palma da mão na cama e com força — em uma das últimas internações da minha mãe.
Ele ficou branco. Odiava quando Kênia disparava sua
metralhadora giratória atingindo quem viesse pela frente. Quando ia rebater a
acusação, ela prosseguiu:
— Por que você acha que eu queimei, pessoalmente, o
antigo colchão?
— Deixe o passado lá atrás – Tadeu pediu com a voz
rouca e sem argumentos. Fora pego de surpresa pela revelação e pela ira da
filha.
— Ah, mas não deixo mesmo – Kênia decidiu sair da
cama. Se aproximou do pai com o dedo em riste. — Não vou descansar enquanto não
acabar com a raça daquela vagabunda.
Kênia ia passando reto pelo pai, mas ele a pegou
com força pelo braço.
— Não brinque com ela.
— Quer me soltar?
— Janine é poderosa.
— Vocês todos têm medo dela. Rúbia. Vitório. Você.
Eu não. Todos vocês são patéticos. Todos. E isto me dá nojo.
Kênia puxou o braço e saiu do quarto sem olhar para
trás e batendo a porta com vontade. Tadeu suspirou e voltou a sentar na
poltrona, já exasperado logo de manhã cedo. Era típico de Kênia começar o dia
às turras. Nervoso, sentiu vontade de tomar algumas doses de uísque, mas
resistiu bravamente.
Será que Kênia sabia que trilhava por um caminho
perigoso e, provavelmente, sem retorno?
Talvez. Mas isto não faria nenhuma diferença para
ela.
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