CAPÍTULO 5 - NA CAMA COM KÊNIA
Havia mais de 50 pessoas no salão da Câmara
do Comércio. Vitório, impecável, estava sentado na segunda fileira, discreto
como sempre. Depois que Janine fora eleita Governadora do Estado ele optara por
ficar em segundo plano. Nas cerimônias que comparecia, como aquela em que
Janine era a figura principal, não fazia muita questão de aparecer. Embora ele
fosse um homem influente e chamasse atenção também pelo seu físico, bancar o
invisível às vezes era o mais apropriado.
Janine palestrava há cerca de vinte minutos
e sua fala já fora interrompida por aplausos várias vezes. No palco sua presença
magra e altiva se destacava. Rubia costumava dizer que a mãe não andava e sim,
deslizava. E, embora não fosse propriamente uma mulher bonita, Janine exalava
sensualidade.
Um toque baixinho no celular chamou-lhe a
atenção. Desinteressado, Vitório desviou os olhos da esposa para conferir o que
era.
Kênia.
A primeira foto era somente dos lábios,
muito vermelhos e convidativos. A foto seguinte era dos seios. A terceira foto,
perturbado, Vitório decidiu nem ver.
Fazia uma semana do jantar na casa de
Tadeu. Depois das fotos explícitas enviadas naquela noite, Vitório esperou o
pior. Achou que seria bombardeado por nudes e mensagens eróticas. Porém, Kênia
sumiu por completo. O que tinha sido muito bom. Já tinha problema demais na sua
vida.
As fotos enviadas tiraram completamente a
atenção de Vitório na palestra. Ele se sentia nervoso e inquieto. Ao seu lado,
Leandro, assessor da Governadora, não tirava os olhos dela. Por alguns
instantes Vitório temeu que o homem pudesse ter visto algo.
Cinco minutos depois nova mensagem.
“Estou louca para transar com você.”
Não era momento para ter uma ereção.
Vitório respirou fundo tentando disfarçar aquele incômodo. Nova mensagem:
“Vem me buscar.”.
“Não aguento mais.”.
Vitório ficou em pé. Leandro voltou os
olhos para ele, estranhando seu comportamento. Tentando controlar o tesão,
Vitório cochichou:
— Diga para Janine que recebi um telefonema
urgente da empresa.
— Tudo bem? É algo grave?
— Não, nada demais. Somente um assunto que
tenho que resolver agora.
Ele saiu apressado do salão sem olhar para
trás. Antes ainda de chegar ao carro decidiu ligar para Kênia. Ela atendeu ao
primeiro toque.
— Ufa, até que enfim.
A voz rouca de Kênia terminou o trabalho de
deixá-lo com o pau em riste.
— Onde você está?
Havia uma urgência na voz dele, tanto pela
iminência do sexo como por medo de ser flagrado.
— Estou no estacionamento do Shopping das
Flores, dentro do meu carro. Vem me buscar e depois nós vamos para algum lugar.
— Estou indo para aí.
Ainda era tempo de desistir, mas Vitório
ignorou esta parte. O Shopping das Flores não ficava muito longe e ele
conseguiu chegar em menos de vinte minutos. Kênia o avistou primeiro e
sinalizou com os faróis. Vitório parou o carro na vaga ao lado e ela entrou,
rápida, fechando a porta com força.
— Uau, curti a pressa em que você veio me
ver – Kênia deu uma olhadinha para o volume que despontava sob as calças dele.
— Tá com vontade, amor?
Vitório passou a mão na testa úmida de
suor. Aquela maluca o deixava nervoso.
— Sei que é um erro eu ter vindo aqui,
mas...
— Cala a boca.
Kênia abriu o cinto da calça dele, quase
arrancou o botão das calças e o pau de Vitório saltou para fora.
— Olha só quem estava me esperando...
— Aqui não é lugar, Kênia.
— Deixa de ser bobo. Os vidros são escuros.
A seguir Vitório ganhou um boquete de
primeira. Fechou os olhos tentando relaxar. Kênia sabia o que estava fazendo.
Não lembrava a última vez que Janine o presenteara com algo daquele nível. Ele
gemeu e tentou se acomodar melhor no banco. Kênia seguiu seu trabalho até que, de
repente, levantou a cabeça e daquele jeito que o excitava além do normal,
convidou:
— Vamos para outro lugar. Posso fazer muito
mais e melhor bem longe daqui.
— Tudo bem – Vitório colocou o pau para
dentro das calças. — Eu conheço um motel que fui com Janine faz um tempo, ainda
antes de ela ser Governadora.
— Não. Eu dou as cartas aqui. Quero ir para
seu apartamento e transar na cama que você dorme com ela.
— Você está doida? – Vitório chegou a
piscar. — É muito arriscado!
— Amorzinho, eu adoro riscos. Rubia está na
faculdade, vai ficar o dia inteiro lá. A Governadora fica no Gabinete até altas
horas. Qual o empecilho?
— E os empregados?
— Escuta aqui. Eu prometo o melhor sexo da
sua vida e você dá um jeito na criadagem. Deixa de ser bundão, Vitório.
— Desde quando eu sou bundão? – Vitório
sentiu seus brios feridos.
— Humm... deixe-me ver... Você está sendo
bundão neste momento.
Ele deu partida no motor. Pensando bem,
talvez não fosse tão arriscado. Se algum empregado visse ambos, nada como uma
graninha para comprar seu silêncio.
— Bundão é uma coisa que não sou.
O carro arrancou enquanto Kênia soltava uma
gargalhada. Por uma fração de segundo o instinto de sobrevivência de Vitório o
alertou para desistir daquele sexo fora de hora. Ele, contudo, pensou somente
com a cabeça de baixo.
*
O quarto de Janine e Vitório era todo em
preto e branco. A seguir vinha um closet enorme mais um banheiro com
hidromassagem que devia caber quatro pessoas. Kênia colocou a mochila na
penteadeira, caminhou até a cama e sentou.
— Vocês transam muito aqui?
— Não quero falar da minha esposa – rebateu
Vitório.
— Nem eu. Foi só curiosidade minha. Vem cá.
Vitório foi submetido a outro boquete ainda
mais intenso que o anterior. A seguir, ele perdeu a noção do tempo e do perigo.
A sessão de sexo rolou por quase duas horas e finalizou dentro da banheira de
hidro. Quando se deu conta que a tarde ia adentro, Vitório deu um pulo soltando
água para todos os lados. Kênia chegou a levar um susto.
— Você foi picado por alguma coisa?
— Kênia, se vista de uma vez. Vou levar
você de volta ao shopping. Rubia pode chegar a qualquer momento.
— Nenhum homem me manda embora depois de
uma foda incrível. Então, veja bem como você usa suas palavras.
Com o corpo pingando água no tapete,
Vitório pegou uma toalha para cada um.
— Querida, por favor. Posso me estrepar do
primeiro ao quinto se eu não tirar você daqui.
— Certo. Entendo você. Mas me prometa que
haverá outras trepadas épicas como as de hoje.
— Claro, prometo! Prometo o que você
quiser. Eu ligo para você.
— Negativo. Quem liga sou eu.
O clima de sensualidade já havia ido para o
espaço. Para desespero de Vitório, Kênia se vestiu devagar, usou o secador de
cabelos de Janine e ainda retocou o batom.
— Nervoso?
Vitório a encarou pelo espelho.
— O que você acha?
— Acho que você deve relaxar. Não foi bom
ficar comigo?
— Foi incrível – ele suspirou. — Mas da
próxima vez vamos fazer sexo longe daqui. Minha mulher é a Governadora.
— Grande bosta. Não precisa repetir que ela
é a Governadora, a superpoderosa. Que adianta isto tudo se ela não transa com
você? Você acha justo? Eu acho que não.
Ele consultou o relógio, tenso.
— Estou pronta, amorzinho.
— Você é linda.
— Claro que sou.
— Prometo que da próxima vez faremos amor
com mais tempo e em um lugar melhor – Vitório se aproximou e a beijou na boca.
— Mas eu gostei daqui, sabia?
— Aqui nem pensar – Vitório tentou se impor
antes que Kênia tomasse conta da situação. — Vamos de uma vez.
Vitório abriu a porta do quarto e quando
Kênia pôs o primeiro pé para fora, ambos deram de cara com Mercedes, a
empregada.
— Oi, Mercedes! Tudo bem com você?
— Ah... Oi, Kênia.
— Você não me viu, entendeu? – Kênia
avançou pelo corredor. Já Vitório, pálido, ficou frente a frente com a mulher.
— Olha aqui, Mercedes. É o seguinte – ele
buscou no bolso a carteira e dali sacou várias notas graúdas. — Deixe o quarto
arrumado e pegue esta grana para se divertir com seu noivo.
— Muito obrigada, senhor Vitório.
Ela guardou o dinheiro no avental e deu as
costas para o patrão. Vitório encontrou Kênia parada à porta da entrada do
apartamento com um sorriso sarcástico no rosto.
— Por que você está branco?
Vitório pegou um lenço do bolso e enxugou
as gotas de suor que brotavam na testa.
— Sorte que a Mercedes me adora.
— Ela não é louca de perder um emprego
destes. Não esquenta. Mercedes não vai abrir a boca. E você molhou a mão dela,
não é?
Vitório abriu a porta do apartamento com
cuidado. Por uma fresta conferiu que não havia nenhum vizinho por perto.
— Vamos pegar o elevador de serviço.
— Você está de brincadeira comigo? – como
sempre Kênia não moderou o tom de voz.
— Psh! Meu anjo, fale mais baixo.
Kênia caminhou até o elevador social e
apertou com força o botão.
— Não faço parte da criadagem do
condomínio.
— Eu sei, eu sei! – Vitório tentou
contemporizar. — Desculpe, anjinho.
O elevador aterrissou no andar e Vitório a
empurrou com delicadeza para dentro.
— Quer parar de me empurrar?
— Estou tenso.
— A impressão é que você está prestes a ter
uma parada cardíaca.
— Talvez não esteja longe disso.
Kênia se encostou na parede do elevador,
encarando-o. Vitório, apesar de todo o desconforto com a situação, achou-a
extremamente sexy,
— Não se comporte como um bundão.
— Já lhe disse que não sou nenhum bundão.
— Tudo bem – ela fez uma pausa. — Pela sua
performance percebi que você não via uma bucetinha há algum tempo.
— Janine é uma mulher ocupada.
— Aham.
O elevador parou na garagem do prédio, no
subsolo. Somente quando ambos estavam no carro que Vitório relaxou soltando um
suspiro de puro alívio.
— Não fique tão tranquilo. O condomínio é
virado em câmeras, Rubia me contou. Estamos em todas elas. Sinceramente, espero
que você não tenha nenhuma inimizade por aqui. Senão você estará fodido.
Vitório tinha pressa em desaparecer dali.
Em uma boa velocidade, levou Kênia de volta ao shopping das Flores. Ele tentou
beijá-la nos lábios, mas Kênia virou o rosto.
— Você ainda não merece.
Ela saiu do carro sem se preocupar em
fechá-la. O carro estava logo adiante. Calma, abriu a porta e olhou para trás.
Vitório não tirava os olhos dela. Kênia sorriu, entrou no carro e o encarou.
— Eu ligo para você – avisou outra vez já
ligando o motor.
Vitório concordou.
— Só precisamos tomar mais cuidado.
— Deixa comigo. Tchau, bonitão.
O carro partiu em alta velocidade, ultrapassando todos os limites permitidos no local. Vitório ficou sozinho no estacionamento respirando fundo várias vezes. A chance de estar embarcando numa furada era altíssima mas, pelo menos, a trepada tinha sido épica. Ah, isto tinha sido mesmo.
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