CAPÍTULO 3 - EU QUERO TRANSAR COM VOCÊ
—
Você não tem vergonha nesta cara?
Sentada na escada, Kênia suspirou. Tadeu estava alguns degraus abaixo. Furioso. Gabriela se aproximou dele.
—
Amorzinho, não adianta discutir com ela. Kênia está podre de bêbada.
Kênia puxou o vestido para cima
mostrando a calcinha. Fez de propósito. Sim, estava bêbada, mas sabia
exatamente o que estava fazendo. Queria provocá-los.
—
Por que você não se acalma? A impressão que tenho é que você vai ter um AVC.
Ela tentou ficar de pé e, quando viu
que não conseguiria fazer isso sozinha, achou prudente sentar outra vez.
—
Pois fique sabendo que até o dia da minha morte eu farei isso. Ao contrário de
você, não tenho medinho dela e não preciso ficar lambendo aquela bunda magra
pra me dar bem.
—
Escute aqui, Kênia! Eu vou...
Tadeu fez menção de subir os degraus com a intenção de partir para cima da filha. Mas não teve tempo. Kênia vomitou em si mesma, sujando o belo vestido e a escada de mármore. Tadeu recuou, enojado. Gabriela deu meia volta e saiu correndo da sala.
A governanta apareceu em segundos e se deparou com Tadeu, pálido e Kênia, rindo, descontrolada. Não foi preciso dizer nada. Lola, eficiente e fria, chamou uma das empregadas para limpar o vômito e ajudou a jovem a se levantar. Se sentindo um pouco melhor, Kênia se deixou conduzir escada acima até seu quarto. Lola abriu o chuveiro e empurrou Kênia vestida para debaixo d’água.
—
Cale-se – Lola a conhecia desde pequena e tinha liberdade para falar grosso com
Kênia. – Você já esgotou sua cota de maldades hoje.
—
Tenho medo que você troque as pernas e caia – Lola lhe deu o braço e a conduziu
até a cama. — Por hoje chega, criatura. Todos os
limites foram extrapolados. Pensa que eu não vi?
Kênia se acomodou na cama e puxou o lençol sobre o corpo. Lola a observava, preocupada.
— Já disse que estou melhor. E… acho que peguei pesado com todo mundo hoje. Meu pai deve estar me odiando.
—
Amanhã ele estará mais calmo e então aproveite para pedir desculpas.
Kênia pegou a mão de Lola, aflita.
— Com ele eu posso conversar a qualquer momento. Mas, e com Janine? E Vitório? Será mais difícil. Estou bem envergonhada, Lola.
—
Meu conselho é que você dê tempo ao tempo. Bem, Janine nunca gostou de você
mesmo. Portanto, evite-a. De preferência, para sempre.
—
Posso pedir um favor?
—
Desde que você não me ponha em maus lençóis...
—
Lola, eu não vou conseguir dormir se não pedir desculpas para o Vitório. Estou me
sentindo tão mal com as minhas atitudes. Você pode conseguir o celular dele?
—
Fico orgulhosa da sua atitude, minha querida. Você deveria agir mais vezes
assim.
Lola se abaixou, beijou-lhe os
cabelos ainda úmidos e saiu do quarto. Kênia se recostou nos travesseiros
atenta aos passos da governanta se afastando pelo corredor.
Então, Kênia gargalhou.
*
Vitório estava escovando os dentes
ainda assombrado com os acontecimentos na casa de Tadeu. No quarto Janine se
preparava para dormir, esbravejando, feroz, sobre o comportamento porco de
Kênia. Ele se mantinha calado. Já escutara demais enquanto voltavam para casa.
O celular fez um sinal. Impaciente,
Vitório pegou o aparelho. Número desconhecido. Ia ignorar, contudo decidiu ver quem
era. Fotos. Várias delas. Kênia, em várias posições. Ele teve que respirar
fundo. Aquela maluca o deixara excitado mais uma vez.
Vitório engasgou com a pasta de
dente. Não podia sair de onde estava, defronte à bancada da pia do banheiro.
Seu pau estava duro.
Janine, parada à porta, encarava-o
através do espelho. Ele, tossindo, mal podia falar. Pegou o celular, tentando
ser natural, e o colocou na cintura, prendendo-o com o elástico do pijama.
—
Me… engasguei.
—
Credo. Pensei que estivesse tendo um troço. Vou dormir. Por hoje chega. Boa
noite.
Ele fez um gesto com a mão e a esposa
se afastou. Outra mensagem chegou.
“Vamos nos ver. Diga quando. Estou
molhadinha só de pensar em você pelado sobre mim.”
Por bem, Vitório decidiu desligar o
celular, perturbado. Garota louca, disse para si mesmo. Deveria evitá-la a todo
custo. Quem sabe bloquear seu número? Mas não o fez. Seu pau duro não permitiu.
*
Kênia esperou a resposta do seu
convite para Vitório por uns vinte minutos e depois desistiu. Vitório era um
cagão mesmo. Porém, não se importou. Ela sabia que o teria de qualquer jeito. E
Janine, aquela imbecil, pagaria direitinho por tentar diminuí-la perante os
outros no jantar. As mesmas fotos Kênia tratou de enviar para o primo. Não
houve resposta e muito menos visualizações. Depois de um tempo, tensa, Kênia
percebeu que o primo a bloqueara no aplicativo de mensagens. Filho da puta. Era
provável que naquele momento estivesse junto com a ex. E que talvez não fosse
mais sua ex.
Ela controlou a vontade de atirar o
celular no chão e sapatear em cima. Resolveria as coisas no dia seguinte. Com
Vitório e com Felipe. Nenhum dos dois a enrolariam mais.
Kênia apagou a luz do abajur e
mergulhou em um sono atormentado e cheio de sonhos estranhos.
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