CAPÍTULO 3 - EU QUERO TRANSAR COM VOCÊ

 

Você não tem vergonha nesta cara?

Sentada na escada, Kênia suspirou. Tadeu estava alguns degraus abaixo. Furioso. Gabriela se aproximou dele.

Amorzinho, não adianta discutir com ela. Kênia está podre de bêbada. 

Kênia puxou o vestido para cima mostrando a calcinha. Fez de propósito. Sim, estava bêbada, mas sabia exatamente o que estava fazendo. Queria provocá-los. 

Por que você não se acalma? A impressão que tenho é que você vai ter um AVC. 

Ela tentou ficar de pé e, quando viu que não conseguiria fazer isso sozinha, achou prudente sentar outra vez.

  Provocar a Governadora do Estado é simplesmente algo impensável! –

 Tadeu, com o rosto vermelho, gesticulava apontando o dedo para a filha.

 Você afrontou Janine!

Pois fique sabendo que até o dia da minha morte eu farei isso. Ao contrário de você, não tenho medinho dela e não preciso ficar lambendo aquela bunda magra pra me dar bem.

Escute aqui, Kênia! Eu vou...

 Gabriela puxou Tadeu para trás.

  Tadeu, você sabe que não adianta falar com ela.

 Kênia bateu palmas, debochada.

  Isso mesmo. Me deixem em paz. E você sua babaca – ela voltou sua fúria para Gabi aproveite bem a grana do meu pai. Não falta muito para ele lhe trocar por outra mais nova. E tão burra quanto.

Tadeu fez menção de subir os degraus com a intenção de partir para cima da filha. Mas não teve tempo. Kênia vomitou em si mesma, sujando o belo vestido e a escada de mármore. Tadeu recuou, enojado. Gabriela deu meia volta e saiu correndo da sala.

 Lola! Loolaaaa!

A governanta apareceu em segundos e se deparou com Tadeu, pálido e Kênia, rindo, descontrolada. Não foi preciso dizer nada. Lola, eficiente e fria, chamou uma das empregadas para limpar o vômito e ajudou a jovem a se levantar. Se sentindo um pouco melhor, Kênia se deixou conduzir escada acima até seu quarto. Lola abriu o chuveiro e empurrou Kênia vestida para debaixo d’água.

  Ai, Lola! Tá gelada esta porra!

Cale-se – Lola a conhecia desde pequena e tinha liberdade para falar grosso com Kênia. – Você já esgotou sua cota de maldades hoje.

 Lola foi até o closet e buscou um robe para Kênia vestir. Depois de um tempo, quando se considerou limpa, Kênia desligou o chuveiro e se secou sob os olhares críticos de Lola.

  Já estou bem. – ela estendeu a mão para pegar o robe.

Tenho medo que você troque as pernas e caia – Lola lhe deu o braço e a conduziu até a cama. Por hoje chega, criatura. Todos os limites foram extrapolados. Pensa que eu não vi?

Kênia se acomodou na cama e puxou o lençol sobre o corpo. Lola a observava, preocupada.

Já disse que estou melhor. E… acho que peguei pesado com todo mundo hoje. Meu pai deve estar me odiando.

Amanhã ele estará mais calmo e então aproveite para pedir desculpas.

Kênia pegou a mão de Lola, aflita.

Com ele eu posso conversar a qualquer momento. Mas, e com Janine? E Vitório? Será mais difícil. Estou bem envergonhada, Lola.

Meu conselho é que você dê tempo ao tempo. Bem, Janine nunca gostou de você mesmo. Portanto, evite-a. De preferência, para sempre.

Posso pedir um favor?

Desde que você não me ponha em maus lençóis...

Lola, eu não vou conseguir dormir se não pedir desculpas para o Vitório. Estou me sentindo tão mal com as minhas atitudes. Você pode conseguir o celular dele?

 Lola encarou Kênia procurando no seu rosto algum traço de cinismo ou falsidade ou ambos. Porém, os olhos dela pareciam tão doloridos que a mulher balançou a cabeça, concordando. De dentro do bolso sacou seu celular. Procurou o contato de Vitório e compartilhou com Kênia. 

Fico orgulhosa da sua atitude, minha querida. Você deveria agir mais vezes assim. 

Lola se abaixou, beijou-lhe os cabelos ainda úmidos e saiu do quarto. Kênia se recostou nos travesseiros atenta aos passos da governanta se afastando pelo corredor. 

Então, Kênia gargalhou. 

* 

Vitório estava escovando os dentes ainda assombrado com os acontecimentos na casa de Tadeu. No quarto Janine se preparava para dormir, esbravejando, feroz, sobre o comportamento porco de Kênia. Ele se mantinha calado. Já escutara demais enquanto voltavam para casa. 

O celular fez um sinal. Impaciente, Vitório pegou o aparelho. Número desconhecido. Ia ignorar, contudo decidiu ver quem era. Fotos. Várias delas. Kênia, em várias posições. Ele teve que respirar fundo. Aquela maluca o deixara excitado mais uma vez. 

Vitório engasgou com a pasta de dente. Não podia sair de onde estava, defronte à bancada da pia do banheiro. Seu pau estava duro.

  O que houve, Vitório? 

Janine, parada à porta, encarava-o através do espelho. Ele, tossindo, mal podia falar. Pegou o celular, tentando ser natural, e o colocou na cintura, prendendo-o com o elástico do pijama. 

Me… engasguei.

Credo. Pensei que estivesse tendo um troço. Vou dormir. Por hoje chega. Boa noite. 

Ele fez um gesto com a mão e a esposa se afastou. Outra mensagem chegou. 

“Vamos nos ver. Diga quando. Estou molhadinha só de pensar em você pelado sobre mim.” 

Por bem, Vitório decidiu desligar o celular, perturbado. Garota louca, disse para si mesmo. Deveria evitá-la a todo custo. Quem sabe bloquear seu número? Mas não o fez. Seu pau duro não permitiu. 

* 

Kênia esperou a resposta do seu convite para Vitório por uns vinte minutos e depois desistiu. Vitório era um cagão mesmo. Porém, não se importou. Ela sabia que o teria de qualquer jeito. E Janine, aquela imbecil, pagaria direitinho por tentar diminuí-la perante os outros no jantar. As mesmas fotos Kênia tratou de enviar para o primo. Não houve resposta e muito menos visualizações. Depois de um tempo, tensa, Kênia percebeu que o primo a bloqueara no aplicativo de mensagens. Filho da puta. Era provável que naquele momento estivesse junto com a ex. E que talvez não fosse mais sua ex.

Ela controlou a vontade de atirar o celular no chão e sapatear em cima. Resolveria as coisas no dia seguinte. Com Vitório e com Felipe. Nenhum dos dois a enrolariam mais. 

Kênia apagou a luz do abajur e mergulhou em um sono atormentado e cheio de sonhos estranhos.

 

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