CAPÍTULO 2 - NOITE INSANA
Tadeu estava conferindo mensagens no celular quando
sentiu um aroma exótico lhe envolvendo. Sozinho na ampla sala teve a impressão
que Karla, sua ex-mulher, surgiria a qualquer momento. Meio atordoado, Tadeu
largou o telefone no sofá e olhou para frente. Chegou a piscar. A semelhança
era grande. Kênia estava parada junto à porta que separava a sala de estar do
hall. O vestido branco e muito fino revelava as pernas longas. Os olhos frios
eram os mesmos. Os mesmos olhos de Karla.
— Que foi, pai? Por que você está me olhando deste jeito?
— Você está cada dia mais parecida com ela – Tadeu
resmungou e apalpou o bolso da calça procurando o maço de cigarros. Certas
situações o deixavam tão tenso que fumar era a única coisa capaz de relaxá-lo.
— Ah, isto é ótimo – Kênia se aproximou e sentou no sofá
ao lado dele. — Você não acha?
Tadeu ignorou a pergunta inoportuna.
— Que roupa é esta, K?
— Oi?
Kênia pegou o celular e procurou algumas fotos – bem
ousadas – para enviar ao primo. Não havia desistido de irritá-lo. Aliás, este
era o seu esporte favorito.
— Este seu vestido. Puxa, ele é muito transparente!
Sem dar importância para o pai, Kênia fez uma pose sexy
puxando o vestindo para cima, fez uma selfie e enviou para Felipe. Do outro
lado somente visualizações e resposta nenhuma.
— Que ótimo, pai – Kênia o encarou, desafiadora. — A
intenção é esta mesma.
— Porra, Kênia! Até nisto você tem o mesmo comportamento
que ela.
— Será que você pode deixar minha mãe em paz? E a mim
também? Obrigada.
O interfone tocou e Lola apareceu correndo vindo da
cozinha. Após troca breves de palavras com a portaria do condomínio, a
governanta avisou:
— Doutor Tadeu, a Governadora e o senhor Vitório já estão
chegando.
— Perfeito, Lola. Obrigado.
Tadeu ficou em pé. Kênia permaneceu sentada fazendo poses
e enviando as fotos para Felipe, alheia à chegada das visitas.
— K, por gentileza. Janine e Vitório estão chegando.
— Maravilha, pai.
Fazia algum tempo que Kênia não via Vitório, amigo antigo
do pai e a quem conhecia desde criança. Era um cara bonito, na casa dos 50
anos. Seu alvo naquela noite. Em compensação, Kênia não podia evitar ver Janine
praticamente todos os dias nas mídias. A Governadora do Estado, mulher
influente, com grandes pretensões políticas, foi a primeira a surgir na porta
da frente. Kênia ficou onde estava, observando, com desdém, a cena. Tadeu,
afetuoso, abraçou ternamente Janine. Vitório vinha logo atrás e ambos se
cumprimentaram, efusivos. Kênia se remexeu no sofá. Opa. Vitório estava muito
gato com aquela barba grisalha cerrada. De longe reparou que ele usava uma
camisa branca um pouco justa que salientava seus músculos. Rubia comentara que
o pai estava frequentando uma academia. E bem, os resultados estavam
aparecendo. E Janine... continuava a ridícula de sempre.
— Você, Janine, sempre linda.
Tadeu pegou a mão dela. A amizade vinha de anos. Janine e
Karla haviam sido íntimas amigas.
— São seus olhos – Janine sorriu. Com o canto do olho
percebeu a aproximação de Kênia.
— Nossa futura presidente – Tadeu piscou um olho para
Vitório.
Kênia se aproximou devagar do pequeno grupo e parou
frente a Vitório e tanto ele como Janine reconheceram o perfume que a garota
usava. Janine evitou olhar para o lado de Kênia e se afastou, estratégica, para
cumprimentar Lola.
— Uau, Tadeu – Vitório abriu um sorriso ao ver Kênia. —
Sua filha está um arraso.
Mas Vitório também estava tentador. Kênia deu dois passos
em direção a Vitório e o abraçou com vontade. O abraço caloroso foi retribuído
na mesma intensidade enquanto Tadeu, constrangido, se voltou para Janine. A certa
distância, ainda ao lado de Lola, ela observava a cena com uma expressão
neutra. Porém, Tadeu a conhecia de longa data e sabia que Janine iria devolver,
em dobro, aquele atrevimento.
— Este perfume – Vitório farejou o ar. — Me lembra de sua
mãe. Porém, posso lhe garantir com a mais absoluta convicção que combina mais
com você.
— Que ela não saiba disso – Kênia ofereceu o braço. —
Vamos para a sala de jantar? Os pratos já estão sendo servidos.
Novamente Janine ignorou as afrontas de Kênia. Tadeu fez
menção de falar alguma coisa quando a campainha tocou de novo. Mais uma vez
Lola se adiantou para abrir a porta.
— Boa noite, senhora Gabriela.
Ao escutar o nome da namorada do pai, Kênia deu mais um
puxão em Vitório praticamente arrastando-o até a sala de jantar. Tadeu recebeu
a namorada, uma loura escultural, sem tirar os olhos tanto da filha como de
Janine. Estava prevendo um embate breve entre ambas. A Governadora, por
enquanto, se mantinha digna ante as investidas de Kênia.
— Jan, você conhece minha namorada, Gabi?
Janine forçou um sorriso perguntando-se, intimamente, de
onde Tadeu tirava suas namoradas. Aquela fazia força para manter um sorriso no
rosto, deixando claro que não se sentia à vontade naquele ambiente com gente
nada a ver com ela. Parecia lhe faltar postura. Mas era justo deste tipo de
mulher que Tadeu gostava. Karla fazia falta.
— Boa noite, Gabriela. Como vai?
Gabriela respondeu alguma coisa, porém Janine não lhe
prestava mais atenção. Aos seus ouvidos chegava a risada irritante de Kênia e a
voz galanteadora de Vitório. Lola organizava os lugares à mesa. Disfarçando seu
desagrado, Janine reparou os olhares sedutores de Kênia para Vitório, ambos
agora sentados frente a frente. Tadeu também teve a mesma percepção e por todo
o jantar tentou atrair a atenção do amigo para conversas de interesse de ambos.
Só que isto parecia impossível. Sentada ao lado de
Vitório, Janine teve ímpetos de desferir um cotovelaço no estômago do marido. Conteve-se
a duras penas. Se aquela vadiazinha queria irritá-la, sim, estava dando certo.
Janine, contudo, jamais iria demonstrar o quanto era afetada por aquele
comportamento ridículo.
Gabriela reparou nas investidas de Kênia e no desconforto
de Tadeu, e tentou puxar assunto com a enteada. Em vão. Kênia a ignorou por
completo, como era de hábito. Na mesa ela só tinha olhos para Vitório.
— Uma pena Rubia não ter vindo – Kênia tomou um gole de
vinho e encarou Vitório. — Faz tempo que não fofocamos.
Janine respondeu um tanto ríspida:
— Rubia está estudando, tem um trabalho para apresentar
amanhã – ela fez uma pausa. — Minha filha é muito responsável. E digna.
Kênia pousou os olhos em Janine sem fazer força para
disfarçar o despeito.
— Rubia é uma pessoa adorável. Não sei a quem saiu.
Vitório pigarreou e tentou mudar de assunto, enquanto
Tadeu virou um cálice cheio de vinho com o rosto vermelho, constrangido.
— E a faculdade como está, Kênia?
— Ah, está incrível, Vitório – Kênia mentiu,
descaradamente. — Cada dia mais sinto que estou no curso certo.
Tadeu engoliu em seco. Vitório retrucou:
— Sua mãe ficaria muito feliz em saber disso. Ela era uma
grande arquiteta. Uma das melhores da sua época.
Gabriela, ansiosa em participar do assunto, enfatizou:
— Ah, mas onde ela estiver tenho certeza que está
orgulhosa da filha!
Kênia revirou os olhos e, em seguida, deparou-se com
Janine a encarando com desdém. A jovem sustentou por alguns segundos a encarada
firme da Governadora e depois mirou seu alvo com um sorriso.
— Você está indo à academia, não? Dá para perceber daqui.
Fez-se um silêncio constrangedor. Vitório, embevecido com
o elogio inesperado, estufou o peito e confirmou:
— Sim, faz uns três meses. Bem, acho que tem dado certo.
Isso é bom.
Vitório deu uma olhadinha para a esposa como se esperasse
algum tipo de concordância. A resposta foram dois olhos frios. Kênia segurou o
riso. Casal patético.
Tadeu, tenso com o rumo da conversa, se virou para o
amigo.
— E então, Vitório? Conversou com os chineses a respeito
daqueles investimentos?
Kênia deixou de prestar atenção na conversa. Aquilo não a
interessava. Encarando Vitório por debaixo dos cílios e sem se importar com a
presença de Janine, Kênia tirou a sandália, esticou a perna e, lentamente, com
o pé, acariciou as coxas dele. Vitório respirou fundo e continuou o assunto com
Tadeu como se nada estivesse acontecendo. Naquele momento Lola conversava com
Janine a respeito da sobremesa deliciosa que havia sido servida. Mas era nítido
que Vitório já não conseguia se concentrar no assunto, fazendo pausas, trocando
as palavras e tentando, desesperadamente, focar os olhos em Tadeu.
Kênia forçou o pé entre os joelhos dele, afastando-os.
Ela chegou mais para frente de modo que o pé alcançasse o pau de Vitório. Logo
sentiu o membro, grande e duro. Kênia, que até então estava de brincadeira, se
sentiu excitada também. Vitório precisou tomar um longo gole de vinho, mas,
quando foi pousar o cálice na mesa, se atrapalhou e derramou-o sobre a toalha
de linho. O líquido vermelho se espalhou para embaraço de Vitório.
— Puxa vida, olha o que eu fiz.
Para Janine foi demais. Enquanto um dos garçons e Lola se
adiantavam para limpar a mesa, Janine ficou em pé. Pálida de raiva.
— Acho que está na hora de irmos embora, Vitório.
A voz firme de Janine não deixava dúvidas do tamanho da
sua fúria. Ele permaneceu sentado. De pau duro seria meio complicado se
levantar. Precisava ganhar tempo e evitou olhar para Kênia.
— Mas já, meu amor? Não conversei metade da minha pauta
com o Tadeu – ele tentou fazer graça. Não deu certo.
A vergonha de Tadeu não tinha tamanho. Olhou para a
filha. Kênia bebia, serena, seu terceiro cálice de vinho. Já estava um pouco
alta e isto era perigoso.
— Mas que pena – Tadeu sorriu, a vergonha cada mais
latente. — Vamos marcar para nos encontrarmos outra noite.
Janine emendou:
— Sim, no nosso apartamento e somente os adultos.
Vitório colocou a camisa para fora das calças, em uma
alucinada tentativa de esconder sua excitação. Só então ficou em pé com uma
expressão tensa no rosto. De soslaio, percebeu que Kênia o encarava com vontade
de rir. Sim, aquela maluca já estava bêbada. Era melhor vazar de lá antes que a
situação perdesse o controle.
— Ela manda no Estado e em mim também – Vitório declarou,
de novo tentando fazer piadinha.
Risadas tensas. Kênia murmurou um “patético” que foi
escutado e ignorado por todos. Tadeu apressou-se a levar o casal de amigos para
a porta antes que Kênia largasse mais alguns dos seus desaforos.
Restou, então, Gabriela e Kênia à mesa. Desconfortável,
Gabi comeu um pedaço do doce que Lola fizera, e que desceu trancando garganta
abaixo. Kênia afastou o prato quase intocado para longe.
— O Vitório está um gostoso, você não acha?
Gabriela devolveu, ríspida:
— Acho que você está bêbada.
— Ah, deixe de bancar a certinha – Kênia se irritou. —
Beba e enlouqueça um pouquinho. Meu pai vai gostar. De repente, ele nem troca
você por outra mais burra.
Ela levantou meio desequilibrada e com seu movimento a
cadeira caiu para trás.
— Uau – Kênia se amparou na mesa. — Acho que bebi um
pouco demais mesmo.
Ela deu meia volta tentando manter o equilíbrio. Pensou
na dificuldade em que teria para subir a escadaria. Bem, subir até o quarto
alcoolizada não era tão novidade assim. Lembrou uma vez que chegou tão bêbada
em casa que desabou nas escadas. Karla surgiu do nada e deu uma surra na filha
ali mesmo. Por um bom tempo Kênia evitou beber e só foi encher a cara de novo
em pleno velório de Karla. Ficou tão bêbada que acordou no sofá de casa, com
Lola pálida ao seu lado, depois de quase ter entrado em coma alcoólico.
E foi assim que Kênia não foi ao enterro da própria mãe.
Mas talvez não tenha perdido muita coisa. O choro falso do pai, a amante dele
no meio das pessoas no cemitério.
Maldita família. E ela era maldita também.
Parabéns querida, estou gostando muito da história. Abraços e Sucesso.
ResponderExcluirFico feliz, obrigadaaa
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