CAPÍTULO 1- KÊNIA
A tarde chegava ao fim no campus da
faculdade. E a paciência de Kênia também. Com passadas firmes, segurou com mais
força a pasta que trazia nas mãos e ajeitou a mochila nas costas. Odiava aquele
curso, o lugar, professores e colegas. O que mais queria fazer naquele momento
era abandonar sua vida acadêmica e partir para outra. Mas não podia. Prometera
à mãe que se formaria, conquistaria um diploma e seguiria seu caminho
profissional com dignidade e competência. Kênia se arrependia até o último fio
de cabelo por ter feito uma promessa tão infeliz em um momento mais infeliz
ainda.
A jovem entrou no carro e bateu a
porta com força. Segundos antes de dar a partida no motor seus olhos alcançaram
um ponto mais adiante, além do estacionamento. Felipe, o primo. Os cabelos
louros pelos ombros refletiam a luz do sol que se punha. O coração dela bateu
mais forte, como sempre acontecia quando o via. Poderia ir até ele, caso Cris
estivesse sozinho.
A questão é que o primo por quem
sempre fora apaixonada estava acompanhado da namorada, ambos sentados em um
banco, com as cabeças coladas.
— Vaca – sussurrou para em seguida
sacar o celular de dentro da mochila. Procurou avidamente dois nudes e enviou
para o telefone de Felipe. — Você me paga, cretino.
De dentro da caminhonete Kênia
aguardou a bomba explodir. Percebeu quando o primo pegou o celular do bolso das
calças e conferiu a tela. Felipe não teve tempo de afastar o aparelho da visão
da namorada. A namorada do primo ficou em pé, arrancou o telefone das mãos dele
e conferiu as fotos. Em seguida, atirou o celular sobre Felipe, deu meia volta
e foi embora pisando duro. Já ele ficou sentado no banco, desolado. Kênia
soltou uma gargalhada e bateu no volante com força, vibrando. Para provocá-lo,
ela pressionou a buzina para chamar sua atenção. Devagar, como se não
acreditasse que fosse possível, Felipe olhou para trás e se deparou com o carro
reluzente da prima e um braço cheio de pulseiras extravagantes lhe acenando.
Com um sorriso no rosto, Kênia
observou o primo vir em sua direção com a fisionomia tão séria que ela se
sentiu mais excitada do que normalmente se sentia quando o via. Era assim
mesmo. Felipe lhe provocava sensações intensas.
Uma pena que ele a odiava.
— Oi, primo lindo – Kênia baixou
mais o vidro, jogando o cabelo vermelho para trás. — O que achou das minhas
fotos? Tenho certeza que aqueles ângulos meus você não conhecia.
Cris se apoiou na janela da
caminhonete. Os olhos dele eram um iceberg.
— Por que você não vai se foder?
— Só se for com você. Você adorou,
lembra? Foram várias vezes.
— Foram duas vezes – corrigiu ele. —
E eu estava bêbado, você deve se lembrar também. Em minha sã consciência eu não
teria trepado com você.
— Lembro-me do seu pau entrando em
mim. Bem dentro de mim.
— Vaza daqui, Kênia. Não adianta
você me enviar suas fotos pornográficas. É feio. Não me seduz.
— Tudo bem – Kênia sacudiu os ombros
e deu a partida no motor. — Duvido que sua “ex-namorada” trepe tão bem quanto
eu. Vai lá. Corre atrás dela.
Kênia arrancou o carro quase
derrubando–o. — Idiota – sussurrou entredentes. — Faríamos um par incrível se
você não fosse um vadio.
Ela rumou lentamente para a casa em
que vivia com o pai. A mansão ficava nos arredores da cidade em um condomínio
luxuoso. Mas ela também não estava a fim de ir para lá. Deu voltas e voltas
pela cidade até anoitecer completamente. Achou que o pai lhe telefonaria,
preocupado, para saber onde ela tinha se enfiado. Mas Tadeu não ligou. Deveria
estar transando com a nova namorada, uma loura insossa. Graziela. Ou Gabriela?
Tanto fazia. O pai era um trouxa, se envolvendo com mulheres mais jovens com
dois neurônios e interessadas somente na grana dele. Burro, era isso que ele
era.
Por fim, Kênia chegou em casa. A
governanta a esperava próximo à escada.
— Boa noite, Kênia. Como foi seu
dia?
— A mesma encheção de saco de
sempre, Lola – ela esticou os olhos para a sala de jantar no ambiente ao lado.
Havia uma movimentação em torno da mesa. Garçons e duas empregadas corriam de
um lado para o outro. — Que merda meu pai inventou hoje?
— Doutor Tadeu convidou a
governadora e o senhor Vitório para jantarem.
— Alguém me ajude – Kênia revirou os
olhos. — Odeio aquela mulher. Bem, não sou obrigada a participar. Até mais,
Lola.
Kênia já estava no meio da escadaria
quando ouviu a voz da mulher:
— Seu pai pediu para lhe avisar.
Pelo que entendi ele quer sua presença.
— Ah, é? – ela se virou, debochada.
— Acho que meu querido pai vai se arrepender muito disso.
Ela prosseguiu corredor adentro até
seu quarto cor-de-rosa. Largou a mochila e pastas no chão e foi direto ao
closet.
Janine. A governadora. A mulher mais
poderosa do estado. Mãe de Rubia, sua melhor amiga. Melhor, não. Única amiga.
Janine e Kênia não se bicavam. E, especialmente naquela noite, Kênia decidiu
que infernizaria Janine durante todo o jantar. Colocaria um vestido bem
provocante para atrair os olhares de Vitório. Janine, com sua cara de fuinha,
ficaria louca de raiva e ciúmes.
Seria uma noite insana.
Parabéns pela história, sempre provocante e cheia de mistérios. Erickson
ResponderExcluirMuito obrigada, estou elaborando o segundo capítulo!
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